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A saúde do fígado e o papel essencial do SNS

A saúde do fígado e o papel essencial do SNS

Artigo de Opinião de Rui Tato Marinho, Pró-Reitor para a área da Saúde da Universidade de Lisboa, Diretor do Programa Nacional das Hepatites Virais da DGS, Presidente do Colégio de Hepatologia 2003-2005 da Ordem dos Médicos, Presidente da APEF 2007-2009, Presidente da SPG 2019-2021

Como vai o fígado dos portugueses? Eu diria que de uma forma bipolar. As ameaças à saúde do fígado existem de forma bem real, como sejam o consumo excessivo de álcool e a presença de gordura (fígado gordo/esteatose/ Metabolic Dysfunction-Associated Steatotic Liver Disease (MASLD).

Portugal tem de melhorar muito em relação a estas duas entidades que são causa de doença crónica do fígado, cirrose e carcinoma hepatocelular (cancro que se desenvolve no fígado). A promoção de vida saudável passa também por procurar um fígado “magro”, com pouca gordura e que não seja inundado por álcool de forma excessiva.

Num mundo em que a Oncologia e o cancro são assunto do dia, muitos se esquecem que os agressores do fígado e a cirrose per se são entidades de forte cariz oncogénico.

Os médicos portugueses que adotaram o fígado como um dos órgãos preferidos têm contribuído de forma notável para a sua saúde, desde 1983, primeiro com a criação do Núcleo de Hepatologia e mais tarde em 1996 com a mudança de nome para Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF), também em Coimbra. A História da APEF está resumida de forma detalhada em documento que pode ser lido no site da APEF, em: https://apef.com.pt/mensagem-da-presidente/#historia

Não há saúde plena e global sem um fígado bom. A APEF tem sido líder na procura da melhor saúde do fígado dos portugueses. Já os egípcios reconheciam a relevância deste órgão quando o guardavam num dos 4 vasos canopos.

De acordo com os dados do Plano Nacional de Saúde 2021-2030 (https://content.pns.dgs.pt/wp-content/uploads/2025/11/1-Plano-Nacional-de-Saude-2030-–-Versao-Integral.pdf), a doença hepática crónica e o tumor maligno do fígado são, respetivamente, a 10.ª e a 13.ª causa de morte antes dos 75 anos. Se somadas estas duas entidades, a mortalidade por doença hepática subiria para a 4.ª posição.

Muito se tem feito em prol da ciência, conhecimento, prevenção e tratamento de quem sofre de doenças hepáticas: desde a criação do Serviço Nacional de Saúde em 1979, classificado em 2000 como o 12.º mais eficiente do mundo de acordo com a OMS, a realização em Portugal da 16.ª e da 38.ª reuniões da European Association for the Study of the Liver em 1981 e em 1988, a reunião da World Hepatitis Alliance/OMS em 2024, a organização do Curso de Doenças Hepatobiliares em Coimbra no ano de 1988, que já vai para a 37.ª edição, o transplante hepático desde 1982, a vacinação universal para a hepatite B para todos os recém-nascidos em 2000, o acesso gratuito ao tratamento da hepatite B (1987) e para hepatite C (2015), sem restrições, a microeliminação na hemodiálise em 2016 e o projeto das prisões em 2018. Isto tudo a par de outros projetos, como a descriminalização do consumo de drogas, a segurança transfusional e a criação da subespecialidade de Hepatologia em 1995, são sinais do impacto de medidas estruturais na saúde do fígado.

Salienta-se o pioneirismo de Portugal na abordagem da hepatite com a criação do portal da hepatite C, baseado no Infarmed, incluindo mais de 38.000 doentes com dados da vida real (Real World Data) e a participação de Portugal nos primeiros ensaios com publicações no New England Journal of Medicine.

O que se tem feito em Portugal, com o contributo de muitos e muitos profissionais de saúde tem sido fantástico e reconhecido como sendo de excelência a nível nacional e internacional.

A Hepatologia tem dois prémios Nobel, um para a hepatite B em 1976 e outro para a hepatite C no ano 2020.

Conseguiu-se a criação de um Programa Prioritário para as Hepatites Virais na Direção Geral da Saúde em 2018, autónomo desde 2021. Os sete relatórios já elaborados pela equipa do programa em conjunto com a DGS, estão disponíveis de forma livre no site da DGS e incluem no seu todo cerca de 400 páginas, 200 figuras/tabelas/gráficos e cerca de 300 referências, disponíveis para leitura, em https://www.dgs.pt/hepatites/relatorios-e-publicacoes.aspx (acesso setembro 2026).

Por tudo isto, temos motivos para celebrar o SNS e a promoção da saúde do fígado, hoje e todos os dias.

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