Refutação analítica aos pressupostos históricos e tecnológicos do Acordo Ortográfico

Prezado Senhor Paulo Freitas do Amaral, autor do artigo “O Acordo Ortográfico ainda não pode ser julgado”.
Li com atenção o seu artigo, no qual defende que vinte anos são um período insuficiente para avaliar o Acordo Ortográfico e que as novas redes de informação e a digitalização vieram, naturalmente, consolidar a sua irreversibilidade. A sua prosa é, reconhecidamente, de grande fluência retórica. Contudo, como cidadão atento à coerência interna da nossa língua e à realidade dos factos digitais, sinto-me na obrigação de lhe endereçar uma contracrítica estruturada, que espero ver publicamente considerada.
Permito-me resumir os argumentos que contradizem a sua tese e que, a meu ver, revelam uma visão excessivamente complacente e determinista da reforma ortográfica:
1. A falácia da escala temporal e a aceleração da História
Argumenta que 20 anos são "extremamente curtos" perante nove séculos de existência da língua. Este raciocínio, porém, constitui uma falácia de autoridade que torna qualquer crítica eternamente prematura. A verdade é que a condição material da História se alterou radicalmente. No passado, uma reforma dependia de gerações para circular através de livros impressos. Hoje, com a comunicação instantânea e a Big Data, produzimos em duas décadas um volume de texto escrito superior a todo o património dos nove séculos anteriores. Portanto, não só é possível avaliar o impacto da reforma, como temos a obrigação estatística e empírica de o fazer. O "tempo histórico" encolheu e a tecnologia não é uma desculpa para a inércia, mas um acelerador de diagnósticos.
2. A confusão entre implementação forçada e qualidade sistémica
O senhor confunde, no seu texto, o sucesso da implementação com a qualidade intrínseca da norma. Que as crianças e os jovens escrevam segundo as novas regras é um dado meramente administrativo e escolar, não um atestado de excelência linguística. A escolaridade obrigatória e os dicionários institucionais impõem qualquer norma, mesmo que ela seja intrinsecamente defeituosa. O cerne da questão nunca foi se as pessoas conseguem adaptar-se (sim porque os humanos são plásticos), mas sim o que se perdeu nessa adaptação. E é factual que se perdeu a transparência etimológica, a ligação orgânica às raízes greco-latinas, e criaram-se novas ambiguidades homofónicas. O tempo não cura contradições lógicas; o facto de nos habituamos a elas, não as transforma em boas regras.
3. A ilusão do "esquecimento" face ao Arquivo Digital Total
O argumento mais frágil apresentado é o de que a nova geração "não tem memória" da grafia anterior, tornando o retrocesso impraticável. Ora, ao contrário das reformas do século XIX, hoje vivemos na era do hiper-arquivo. Qualquer jovem, ao pesquisar um texto de 1998 ou uma edição crítica de Camões, tem acesso instantâneo e lado-a-lado às duas normas. A tecnologia não apaga o passado; monumentaliza-o e torna-o perenemente acessível nos servidores. Portanto, a memória não é biológica, é algorítmica. E se a memória persiste digitalmente, a justificação para não se voltar atrás perde toda a força histórica.
4. A tecnologia como agente de coerção, não de evolução orgânica
Afirma que "os computadores, os corretores e a IA trabalham naturalmente com as normas atuais". Esta é uma inversão lógica perigosa. Um corretor ortográfico não é um fenómeno linguístico natural; é um acto de engenharia política e comercial. Se a Microsoft ou a Google atualizarem os seus dicionários para a norma anterior (ou para uma híbrida), toda a escrita digital mudará no dia seguinte. A tecnologia não é um agente de consolidação irreversível; é um agente de plasticidade extrema. Usar a tecnologia para validar o Acordo é como dizer que uma estrada de asfalto é irreversível porque os carros só andam nela, esquecendo que o asfalto foi posto por decisão humana e pode ser removido por outra decisão. A língua não "muda" porque o Word sublinha uma palavra a vermelho; a língua é coagida por uma interface, o que é historicamente muito diferente.
5. A incoerência interna da reforma (o "deus dará" estrutural)
O artigo começa por dizer que "a língua não obedece a decretos", mas termina a defender que o decreto deve permanecer só porque foi aplicado. Se a língua é orgânica, ela rejeitaria espontaneamente as más soluções. Ora, o que vemos é que a língua não rejeitou porque a tecnologia e a escola a implementaram. Estamos perante uma língua em estado de vida assistida, não de evolução natural. A reforma quebrou a coerência morfológica ao eliminar consoantes em alguns contextos, mas mantê-las noutros (nas palavras da mesma família), e criou caos nas conjugações verbais como adequar ou averiguar e empobrece a língua acabando propriamente com o vós. Isto não é evolução; é uma colcha de retalhos que um filólogo sério reconheceria como um atentado à lógica sistémica da língua.
Conclusão:
A sua visão, prezado Senhor Paulo Freitas do Amaral, é a de um historiador que olha para o passado com saudade, mas que se recusa a olhar para o presente com rigor técnico. A avaliação de uma reforma ortográfica não deve ficar refém de uma paciência cronológica indefinida; deve passar pelo crivo da funcionalidade cognitiva, da transparência etimológica e da economia pedagógica. E nesse crivo, infelizmente, o Acordo Ortográfico revela-se frágil, incoerente e profundamente dependente do "deus algorítmico" dos corretores.
Não peço que o consideremos um "fracasso" por decreto, mas peço que lhe retiremos o véu da inevitabilidade histórica. A língua portuguesa sobreviveu a muitas mudanças, mas sobreviveu, sobretudo, porque houve quem as discutisse com lucidez e não as aceitasse como um destino cego. É nesse espírito de debate crítico que lhe apresento estas reflexões.
Com os melhores cumprimentos,
António da Cunha Duarte Justo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578


