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Servir é fazer mais

Servir é fazer mais

Existe uma ideia, infelizmente ainda muito presente na sociedade, de que o funcionário público é alguém que está ali simplesmente porque não consegue fazer outra coisa. Por vezes, associa-se essa imagem a uma pessoa desleixada, pouco empenhada, que faz apenas aquilo que lhe é estritamente pedido e que encara o trabalho como uma obrigação a cumprir, e não como uma oportunidade de servir.

É uma imagem injusta para tantos profissionais que, diariamente, exercem as suas funções com competência, dedicação e sentido de responsabilidade. Mas é também uma imagem que deve levar todos os trabalhadores do Estado a uma reflexão séria: para quem estamos, afinal, a trabalhar?

Um funcionário público não trabalha apenas para uma instituição. Trabalha para as pessoas.

Do outro lado de um balcão, de um telefone, de um gabinete ou de um serviço está um cidadão. Pode estar uma pessoa idosa que não sabe como tratar determinado assunto, um jovem à procura de uma oportunidade, um pai ou uma mãe preocupados com a situação da sua família, alguém que atravessa dificuldades financeiras ou simplesmente uma pessoa que precisa de orientação para conseguir exercer um direito.

Para quem procura um serviço público, aquele funcionário pode ser o rosto de todo o Estado.

Por isso, trabalhar no serviço público deveria significar muito mais do que cumprir horários, responder aos pedidos e concluir processos. Deveria significar servir com zelo, respeito, competência e dedicação.

É neste contexto que o CDS-PP de Lagos propõe que seja recuperado um princípio simples, mas profundamente transformador: o princípio do “também”.

O princípio do “também” traduz-se na atitude voluntária de fazer mais do que aquilo que foi pedido ou do que seria considerado o mínimo necessário. É a disposição de ir além da obrigação, de olhar para a necessidade do outro e perguntar: “O que mais posso fazer para ajudar?”

Não significa ultrapassar regras, assumir competências que não nos pertencem ou fazer aquilo que não é permitido. Significa, dentro das nossas possibilidades, responsabilidades e limites, não ficarmos indiferentes perante a necessidade do outro.

Se uma pessoa pergunta onde deve entregar um documento, podemos limitar-nos a indicar o balcão. Mas podemos também explicar-lhe, com clareza, quais os passos seguintes, para evitar que tenha de voltar desnecessariamente.

Se uma família chega a um serviço sem saber exatamente como resolver determinada situação, podemos simplesmente dizer que aquele assunto não é da nossa competência. Ou podemos indicar, com respeito e atenção, onde deve dirigir-se.

Não é um rua simplesmente varrida de qualquer maneira; mas uma rua limpa com zelo e dedicação como se fosse o interior da nossa própria casa.

É esse “também” que faz a diferença.

O “também” não exige grandes gestos. Muitas vezes começa num sorriso, numa palavra de esclarecimento, numa explicação dada com paciência, numa chamada que fazemos para confirmar uma informação, num minuto adicional que dedicamos a alguém que claramente precisa de ajuda.

É a diferença entre despachar uma pessoa e atender uma pessoa.

É a diferença entre dizer “isso não é comigo” e perguntar “como posso encaminhá-lo corretamente?”

É a diferença entre fazer apenas o nosso trabalho e compreender que o nosso trabalho tem impacto na vida de alguém.

O princípio do “também” é, no fundo, uma forma de recuperar uma cultura de serviço. Uma cultura em que cada trabalhador compreende que a sua função não existe apenas para garantir o funcionamento de uma estrutura administrativa, mas para servir a comunidade.

E esta atitude não deveria aplicar-se apenas aos funcionários públicos. Deve ser uma forma de estar na vida.

Na família, no trabalho, nas empresas, nas associações, na comunidade e nas relações pessoais, todos podemos escolher entre fazer apenas o necessário ou dar um pouco mais de nós.

Há uma expressão que resume bem esta atitude: andar a segunda milha. É não parar exatamente no ponto em que termina a obrigação, mas estar disponível para dar mais um passo quando esse passo pode fazer diferença na vida de outra pessoa.

Precisamos, por isso, de mudar a forma como olhamos para o serviço público. É necessário exigir profissionalismo, competência, pontualidade e responsabilidade. Mas também é necessário reconhecer e valorizar aqueles que fazem do serviço aos outros uma verdadeira missão.

O Estado não é uma entidade abstrata. O Estado encontra-se com o cidadão através das pessoas que o representam.

Cada atendimento é uma oportunidade para construir ou destruir confiança. Cada funcionário pode contribuir para que alguém saia de um serviço público sentindo que foi apenas mais um número — ou sentindo que foi ouvido, respeitado e tratado com dignidade.

No final, talvez a grande questão seja muito simples: Quando terminamos aquilo que nos foi pedido, estaremos dispostos a fazer também aquilo que pode ajudar o outro?

Porque uma sociedade melhor não se constrói apenas com grandes reformas e grandes discursos. Constrói-se também nos pequenos gestos de quem decide fazer um pouco mais.

Fazer o que é nossa obrigação é responsabilidade. Fazer também aquilo que podemos para ajudar o próximo é serviço.

Miguel Silva

Presidente da Concelhia Política

CDS-PP Lagos

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