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O Governo olhou para o fundo do mar

O Governo olhou para o fundo do mar

Há lugares onde a História se ergue em pedra e Portugal escreveu-a também nas profundezas do oceano.

A baía de Angra do Heroísmo constitui talvez o mais extraordinário exemplo dessa realidade. Sob as suas águas repousam mais de noventa embarcações de diferentes épocas e nacionalidades, testemunhas silenciosas de um Atlântico que, durante séculos, foi o centro das comunicações entre continentes. Galeões portugueses, navios espanhóis, embarcações inglesas, francesas e holandesas transformaram aquele pequeno porto açoriano num dos mais importantes arquivos da navegação mundial.

Cada naufrágio constitui uma cápsula do tempo. Enquanto uma fortaleza, um mosteiro ou um palácio conheceram sucessivas reconstruções ao longo da sua existência, um navio conserva frequentemente o instante exato da sua perda. O arqueólogo encontra a carga onde foi guardada, a porcelana onde foi acondicionada, os instrumentos de navegação onde o piloto os utilizou pela última vez, os canhões ainda voltados para um inimigo que talvez nunca chegasse a ver. Poucos testemunhos materiais permitem compreender uma época com tamanha autenticidade.

A História de Portugal não terminou na linha da costa. Continuou mar adentro. Ali permanecem fragmentos da presença romana, embarcações medievais, navios da Carreira da Índia, galeões da Monarquia Hispânica, frotas envolvidas nas guerras napoleónicas e embarcações afundadas durante os conflitos mundiais do século XX. Cada descoberta acrescenta uma nova página ao conhecimento da nossa identidade marítima.

Estão hoje identificados cerca de sete mil naufrágios nas águas sob soberania ou jurisdição portuguesa, embora muitos especialistas considerem que esse número representa apenas uma pequena parte da realidade. Durante séculos, tempestades, combates navais, erros de navegação e acidentes transformaram a costa portuguesa num dos maiores repositórios de património cultural subaquático da Europa.

Os exemplos conhecidos são reveladores da extraordinária riqueza deste património. A nau Nossa Senhora dos Mártires, perdida junto à barra do Tejo em 1606, devolveu à investigação porcelanas da dinastia Ming, pimenta transportada da Índia, moedas, armamento e elementos estruturais da embarcação. Ao largo de Cascais, as campanhas arqueológicas identificaram importantes vestígios de navios portugueses dos séculos XVI e XVII, confirmando que o fundo do mar continua a guardar capítulos inteiros da epopeia marítima portuguesa.

Estas descobertas só foram possíveis graças ao recurso às mais modernas tecnologias hidrográficas. O navio oceanográfico NRP D. Carlos I, equipado com sistemas de sonar multifeixe e sonar de varrimento lateral de elevada precisão, permitiu cartografar o fundo marinho com um detalhe impensável há poucas décadas. A arqueologia subaquática do século XXI depende tanto do historiador como do engenheiro, do mergulhador como do hidrógrafo. Conhecer o passado exige hoje tecnologia sofisticada. Portugal beneficiaria de um reforço destes meios, permitindo estender a investigação a outras zonas da costa continental, aos Açores e à Madeira, onde seguramente permanecem centenas de sítios arqueológicos ainda desconhecidos.

Durante demasiado tempo, o mar foi encarado quase exclusivamente como espaço económico, militar ou estratégico. Esqueceu-se que nele repousa uma parte significativa da memória nacional. Um país que construiu a primeira globalização não pode limitar-se a celebrar as partidas das suas naus; deve também conhecer o destino de muitas delas.

É precisamente por isso que importa saudar a recente iniciativa do Governo ao criar o Grupo de Trabalho Interministerial para a Salvaguarda do Património Cultural Subaquático. A articulação entre os ministérios da Defesa Nacional e da Cultura, a Marinha, a Autoridade Marítima Nacional e o Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática representa um passo que há muito se justificava. Não se trata apenas de proteger destroços. Trata-se de preservar documentos da nossa História.

É justo reconhecer, neste domínio, o empenho do Ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, e da Ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes. A valorização do património cultural subaquático constitui uma visão moderna da soberania nacional. Um Estado que conhece o que possui está mais preparado para o proteger, para o estudar e para o transmitir às gerações futuras.

Portugal habituou-se a olhar para os seus castelos, para os seus mosteiros e para os seus centros históricos como símbolos da sua identidade. Continuarão a sê-lo. Mas talvez tenha chegado o momento de compreender que uma parte igualmente decisiva da nossa História permanece invisível, coberta por séculos de água e silêncio.

No fundo do Atlântico não repousam apenas navios. Repousa uma parte da memória de Portugal.

Paulo Freitas do Amaral

Professor e Autor

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