O Cancro do Pulmão não tira férias

A 1 de agosto assinala-se o Dia Mundial do Cancro do Pulmão, mote da campanha "O Cancro do Pulmão Não Tira Férias". A mensagem é simples: no verão, muitas rotinas ficam em pausa, mas o cuidado com a nossa saúde não deve ficar.
O que é o cancro do pulmão?
É uma doença em que células do pulmão começam a crescer de forma anormal e descontrolada, formando tumores que comprometem progressivamente a função respiratória e que, sem tratamento, podem espalhar-se a outros órgãos.
Existem diferentes tipos?
Sim, existem dois grandes grupos. O carcinoma de não pequenas células (CPNPC) é o mais frequente — cerca de 85% dos casos — e inclui subtipos como o adenocarcinoma e o carcinoma pavimento-celular. O carcinoma de pequenas células (CPPC) é menos frequente, mas tende a ser mais agressivo. Consoante cada subtipo podem ser pedidos estudos moleculares, que são úteis para os melhor caraterizar e orientar as opções de tratamento.
Quais os principais sintomas?
Numa fase inicial, a doença é frequentemente silenciosa, o que explica porque muitos casos são diagnosticados em estadio mais avançado. Sintomas a não ignorar: tosse persistente ou que se agrava, expetoração com sangue, falta de ar sem explicação, dor torácica, rouquidão persistente, perda de peso inexplicada, cansaço constante e infeções respiratórias recorrentes. Estes sintomas podem ter outras causas, mas quando persistem justificam avaliação médica — também durante as férias.
Quais os principais fatores de risco?
O tabagismo continua a ser, de longe, o principal fator de risco, estando associado à maioria dos casos. Também o fumo passivo aumenta o risco de desenvolver a doença. Somam-se outros fatores: exposição ao radão, contacto com amianto e outras substâncias em contexto profissional, poluição atmosférica, algumas doenças pulmonares crónicas e história familiar da doença. Para fumadores e ex-fumadores o rastreio pode ser considerado, consoante a faixa etária e a carga tabágica.
Como é que Portugal compara com a União Europeia?
Portugal apresenta, de forma geral, uma incidência de cancro próxima da média europeia. Em 2024 foram diagnosticados 6.148 de novos casos de cancro do pulmão, tornando-o a quarta neoplasia mais diagnosticada em Portugal, mas responsável por 5.589 mortes nesse ano, sendo a principal causa de morte oncológica. Um dado a reter: face à média da União Europeia, a mortalidade tem diminuído ligeiramente entre os homens portugueses, mas aumentado de forma considerável entre as mulheres, refletindo os padrões de tabagismo feminino das últimas décadas. Tal como em outros países da Europa, que já implementaram o rastreio ou estão a trabalhar na sua implementação, em abril de 2026 foi assinado um despacho para a implementação de projetos-piloto de rastreio do cancro do pulmão no SNS, no âmbito da Estratégia Nacional de Luta Contra o Cancro – Horizonte 2030.
Como evitar?
A maioria dos casos de cancro do pulmão é potencialmente evitável. A medida mais importante é não fumar. Para quem fuma, pode procurar apoio à cessação tabágica nos serviços de saúde, incluindo a farmácia comunitária.
É igualmente importante evitar a exposição ao fumo passivo, reduzir a exposição ocupacional a substâncias carcinogénicas, conhecer o risco de radão em zonas onde este é mais frequente e adotar um estilo de vida saudável e não desvalorizar sintomas persistentes, mesmo em período de férias.
As farmácias comunitárias, pela proximidade à população, desempenham um papel fundamental na promoção da cessação tabágica, na educação para a saúde e na identificação de sinais de alarme. Muitas vezes, uma conversa com o farmacêutico pode ser o primeiro passo para um diagnóstico atempado ou para a decisão de deixar de fumar.
O cancro do pulmão não tira férias. A prevenção, a informação e a atenção aos sinais de alerta também não devem tirar.
Dr. João Godinho
Hospital da Luz Lisboa



