(Z1) 2024 - CM de Vila do Bispo - Birdwatching
(Z4) 2026 - CM Lagos - Arte Doce

“O Algarve não precisa de demagogia rodoviária. Precisa de verdade e mobilidade sustentável”

“O Algarve não precisa de demagogia rodoviária. Precisa de verdade e mobilidade sustentável”

A recente indignação dos deputados socialistas eleitos pelo Algarve perante a ausência da região no novo pacote nacional de investimentos rodoviários seria mais convincente se não viesse carregada de esquecimento selectivo. O Algarve tem razões antigas para se sentir prejudicado em matéria de mobilidade, mas a primeira obrigação de quem exerce mandato público é dizer a verdade inteira, não apenas a parte que convém ao combate partidário do momento.

Os socialistas falam em discriminação, abandono e ausência de investimento. O tom é fácil, a indignação é previsível e a conclusão parece pronta antes da análise. Mas há uma pergunta que não pode ser evitada: como pode o Partido Socialista falar da EN125 e das ligações rodoviárias algarvias como se nada tivesse tido a ver com o novelo jurídico, contratual e político que bloqueou durante anos a execução plena da Subconcessão do Algarve Litoral?

A requalificação e manutenção da EN125 integram uma subconcessão assinada em 2009, no tempo do executivo socialista de José Sócrates, entre a então Estradas de Portugal e a Rotas do Algarve Litoral. Tratava-se de um contrato de 30 anos, com termo previsto para 2039. Desde então, a região ficou presa a um modelo contratual pesado, litigioso e de difícil resolução. A tentativa posterior de renegociação, já no ciclo político de António Costa, acabou por esbarrar no Tribunal de Contas. Seguiram-se litígios, processos arbitrais, bloqueios e decisões de emergência tomadas pelo Estado para impedir que troços essenciais ficassem indefinidamente abandonados.

É, por isso, politicamente pobre transformar agora este bloqueio numa acusação simples contra o Governo da Aliança Democrática. O Governo actual não criou a armadilha. Herdou-a. E, ao contrário do que a demagogia sugere, não basta anunciar obras para que elas possam avançar juridicamente. Um Estado responsável não pode ignorar contratos, litígios, indemnizações potenciais e riscos financeiros para o contribuinte. Governar não é gritar mais alto; é resolver com prudência.

Aqui se percebe bem a diferença entre uma política de propaganda e uma política de responsabilidade. A Democracia Cristã não encara a mobilidade como mero instrumento eleitoral. Encara-a como condição de dignidade humana, coesão territorial, liberdade familiar, competitividade económica e justiça social. Uma estrada insegura, um transporte público inexistente ou uma ligação interrompida não são apenas falhas técnicas: são obstáculos à vida concreta das pessoas. Afetam trabalhadores, idosos, estudantes, empresas, doentes, cuidadores e famílias.

Por isso, defender a posição do Governo da Aliança Democrática, em que o CDS-PP participa, não significa aceitar passivamente que o Algarve fique para trás. Significa exigir que se resolva primeiro o que bloqueia a região, em vez de alimentar ilusões. O Governo deve, com firmeza, desenredar a Subconcessão do Algarve Litoral, clarificar responsabilidades, proteger o interesse público e criar condições para concluir aquilo que há muito devia estar concluído: a requalificação integral da EN125, as variantes necessárias, os acessos estruturantes à Via do Infante e as ligações aos concelhos mais penalizados pela interioridade.

Mas seria também um erro limitar o futuro da mobilidade algarvia a mais quilómetros de asfalto. O Algarve precisa de uma visão sustentável, integrada e regional. Precisa de uma EN125 segura, sim, mas também de uma ferrovia modernizada, fiável e articulada com autocarros intermunicipais. Precisa de bilhética simples, horários compatíveis com a vida real, interfaces junto às estações, transportes flexíveis para o interior e soluções de proximidade para idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Precisa de corredores urbanos mais seguros, ciclovias onde façam sentido, estacionamento dissuasor, carregamento eléctrico e planeamento que reduza deslocações desnecessárias.

A mobilidade sustentável não é uma moda ambientalista. É bom senso cristão aplicado à vida pública: cuidar da criação, proteger os mais frágeis, evitar desperdício, aproximar pessoas, respeitar as gerações futuras. A subsidiariedade também aqui importa: municípios, comunidades intermunicipais, empresas, IPSS, escolas, operadores de transporte e Estado central devem cooperar, cada um ao seu nível, para servir melhor as pessoas.

O Algarve não precisa de deputados que descubram problemas apenas quando estão na oposição. Precisa de representantes que conheçam a história, assumam responsabilidades e ajudem a construir soluções. A indignação socialista pode render comunicados. Mas a região precisa de mais: verdade, coragem política e um plano de mobilidade que una estradas, ferrovia, transporte público, segurança e sustentabilidade.

O tempo da demagogia rodoviária deve acabar. O Algarve merece caminhos seguros, mobilidade digna e futuro.

Artigo de Opinião de: Alexandre Guedes da Silva. Comissão Política Distrital CDS-PP Algarve Faro, 13 de julho de 2026

  • PARTILHAR   

Outras Opiniões

: