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Crescer sem planear é hipotecar o futuro de Lagos

Crescer sem planear é hipotecar o futuro de Lagos

Nos últimos anos, Lagos tem assistido ao licenciamento e construção de um número muito significativo de novos hotéis. Alguns já se encontram em construção, enquanto outros aguardam ainda a conclusão dos respetivos processos de licenciamento.

À primeira vista, esta realidade deve ser encarada como uma boa notícia.

Mais hotéis significam mais investimento privado, mais emprego, maior capacidade de atrair visitantes e uma economia local mais dinâmica. Significam igualmente receitas para o Estado e para as autarquias, quer através do IMT cobrado na transmissão dos terrenos e edifícios, quer, futuramente, através do IMI e de outros impostos e taxas associados à atividade económica.

Ninguém de bom senso pode ser contra o investimento.

Mas também ninguém deve ignorar a outra face da moeda.

Cada novo hotel representa dezenas ou centenas de novos postos de trabalho. Se multiplicarmos este impacto pelos mais de dez empreendimentos turísticos previstos para Lagos, estamos a falar de muitos milhares de novos trabalhadores que, naturalmente, precisarão de um lugar para viver.

E é precisamente aqui que começa o problema.

Enquanto aprovamos hotéis, onde estão as habitações para quem neles vai trabalhar?

O concelho continua a debater-se com uma grave falta de habitação acessível. Os preços das casas e das rendas atingiram valores incomportáveis para grande parte dos trabalhadores, obrigando muitos deles a viver noutros concelhos e a deslocarem-se diariamente para Lagos.

Esta realidade aumenta a pressão sobre a mobilidade urbana, agrava o trânsito, dificulta o estacionamento e reduz significativamente a qualidade de vida de quem vive e trabalha no concelho.

Mas as preocupações não terminam aqui.

O crescimento urbano implica igualmente maiores exigências ao nível das infraestruturas públicas.

As redes de abastecimento de água, os sistemas de saneamento, a recolha de resíduos, os equipamentos públicos, os acessos rodoviários e os transportes devem crescer ao mesmo ritmo da população residente e da população turística.

Infelizmente, essa não parece ser a realidade.

O exemplo mais evidente é o sistema de saneamento.

Apesar das obras de requalificação e ampliação da ETAR de Lagos, continuam a verificar-se descargas de águas residuais insuficientemente tratadas para a Ribeira de Bensafrim, situação que tem tido consequências ambientais preocupantes e que já contribuiu para problemas na qualidade das águas balneares e para a perda de Bandeiras Azuis em algumas praias do concelho.

É difícil compreender como se continua a aumentar significativamente a pressão urbanística quando persistem limitações em infraestruturas tão essenciais.

Existe ainda outro aspeto frequentemente esquecido.

Uma cidade não vive apenas de edifícios.

Vive também dos seus espaços públicos, dos parques urbanos, das zonas verdes, das áreas de lazer e dos locais onde as pessoas podem simplesmente caminhar, descansar ou conviver.

Lagos continua claramente deficitário neste domínio.

À medida que o betão avança, não se observa um investimento proporcional na criação de espaços verdes que permitam melhorar a qualidade ambiental e a qualidade de vida da população.

O verdadeiro desafio não consiste em decidir se devemos ou não construir hotéis.

Essa é uma falsa questão.

O verdadeiro desafio consiste em garantir que cada novo investimento seja acompanhado pelas infraestruturas necessárias para o suportar.

Mais habitação.

Mais saneamento.

Melhores acessibilidades.

Mais transportes públicos.

Mais equipamentos coletivos.

Mais espaços verdes.

Mais qualidade urbana.

O planeamento urbano não pode limitar-se a autorizar construções.

Tem de antecipar as necessidades futuras do território e assegurar que o crescimento económico não compromete a sustentabilidade do concelho.

Caso contrário, estaremos a resolver os problemas do presente enquanto criamos problemas muito maiores para o futuro.

Lagos merece continuar a crescer.

Mas deve crescer com inteligência.

Porque uma cidade não se mede pelo número de hotéis que constrói.

Mede-se, sobretudo, pela qualidade de vida que consegue oferecer a quem nela vive, trabalha e escolhe construir o seu futuro.

O desenvolvimento económico é indispensável. Mas desenvolvimento sem planeamento deixa de ser progresso e passa a ser um risco para o futuro do concelho.

Luís Barroso

Ex. Vereador e Mestre em Gestão Empresarial

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