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A 1ª República gozada pelo povo

A 1ª República gozada pelo povo

"Um português, uma tristeza; dois portugueses, uma discussão; três portugueses, uma revolução."

A frase corria nos meios portugueses e estrangeiros durante a I República, sendo particularmente conhecida em Paris, onde a vida política portuguesa era acompanhada com atenção por diplomatas, jornalistas e intelectuais. Em poucas palavras, resumia uma imagem que se foi construindo sobre Portugal entre 1910 e 1926: a de um país onde o entusiasmo das grandes ideias rapidamente dava lugar à divisão, onde o debate político facilmente se transformava em conflito e onde as revoluções pareciam fazer parte da rotina nacional.

Mas esta não foi a única frase que ficou desse período. A própria expressão "Viva a República!", nascida como grito de esperança nas ruas de Lisboa em 1910, começou a mudar de significado à medida que os anos passavam. Aquilo que inicialmente representava a promessa de um novo Portugal passou, muitas vezes, a ser usado com ironia. Quando surgia uma nova crise política, quando um governo caía ou quando a situação económica piorava, o mesmo grito podia transformar-se numa crítica mordaz: "Viva a República!" já não era apenas entusiasmo; podia ser uma forma de dizer que algo estava profundamente errado.

Outra expressão que atravessou o tempo foi "Isto é uma República das bananas!". Hoje utilizada muitas vezes para significar confusão ou desordem, tem precisamente uma herança ligada ao ambiente político da época. O regime que prometera acabar com os vícios da monarquia era acusado pelos seus adversários de ter criado uma nova forma de instabilidade, marcada por sucessivos governos, lutas partidárias e confrontos entre diferentes correntes republicanas.

Também a sucessão de revoluções alimentou a sátira popular. A ideia de uma "República das revoluções" espalhou-se como uma crítica a um sistema político onde os conflitos militares e as mudanças de poder pareciam nunca terminar. Para muitos portugueses, o regime que nascera através de uma revolução parecia condenado a viver permanentemente em revolução.

A instabilidade governativa tornou-se igualmente motivo de humor. Entre os cafés, as ruas e os jornais satíricos multiplicavam-se as piadas sobre ministros que entravam e saíam rapidamente, sobre governos que duravam pouco tempo e sobre uma classe política mais preocupada com disputas internas do que com os problemas concretos do país.

Foi neste ambiente que se popularizaram frases como "a República prometeu muito e deu pouco", traduzindo a desilusão de uma parte da população que esperava melhorias imediatas na economia, na vida social e no funcionamento do Estado.

A caricatura tornou-se uma das grandes armas da crítica política. Jornais humorísticos como A Paródia, O Zé e Os Ridículos transformaram presidentes, ministros e deputados em personagens de um teatro nacional, onde a sátira revelava aquilo que muitos portugueses pensavam mas nem sempre diziam publicamente.

Contudo, a crítica popular à I República não deve ser confundida com a ausência de conquistas ou de ideias positivas. O período republicano foi também marcado por importantes debates sobre educação, cidadania e modernização do país. Mas os regimes políticos não vivem apenas das suas leis e dos seus discursos oficiais. Vivem também da memória que deixam nas ruas, nas conversas populares e nas frases que permanecem.

E a I República deixou uma curiosa herança linguística: um conjunto de expressões que mostram como um povo observava o poder através do humor.

"Um português, uma tristeza; dois portugueses, uma discussão; três portugueses, uma revolução."

"Viva a República!"

"Isto é uma República das bananas!"

Três frases diferentes, três momentos de uma mesma história: o entusiasmo inicial, o desencanto progressivo e a ironia final com que muitos portugueses passaram a olhar para o regime.

No fundo, a República foi também contada pelo povo. E, por vezes, a sátira revela tanto sobre uma época como os discursos dos seus próprios protagonistas.

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