CEUTA E O TEATRO DAS NARRATIVAS
50.000 almas entre o desespero e o xadrez geopolítico
Nas últimas semanas assistimos a um caso exemplar de como um rumor pode transformar-se, em poucos dias, numa aparente certeza política. Tudo começou com uma notícia da CNN Portugal que foi truncada, ampliada e redirecionada para a ULS Algarve por um comunicado do Sindicato dos Médicos da Zona Sul (SMZS-FNAM) e que acabou reproduzida por diversos órgãos da comunicação social regional, através de um comunicado partidário, todos assentes na alegação de que o Governo estaria em "negociações avançadas" para entregar a gestão da Unidade Local de Saúde (ULS) do Algarve à União das Misericórdias Portuguesas (UMP).
A DECO E INFORMA…
Ceuta voltou a ocupar as manchetes. A crise migratória, a pressão sobre uma das fronteiras externas da União Europeia e as tensões diplomáticas colocaram novamente aquela pequena cidade africana no centro da atualidade. Contudo, entre imagens de vedações, patrulhas e embarcações, há um pormenor que passa despercebido à esmagadora maioria dos portugueses. Sobre os edifícios oficiais de Ceuta continua a tremular uma bandeira que guarda, há mais de seis séculos, uma das mais extraordinárias memórias da História de Portugal.
Há realidades que não aparecem nas estatísticas nem nos estudos de mercado. Descobrem-se viajando. Descobrem-se nos aeroportos, nos hotéis, nos restaurantes e nas conversas inesperadas que surgem longe de Portugal. Nos últimos anos tenho viajado por vários continentes e há uma impressão que se vai consolidando de viagem para viagem: a marca Sporting está a crescer de forma evidente no estrangeiro, muito por causa de Cristiano Ronaldo.
“Se nada nos pode salvar da morte, ao menos que o amor nos salve da vida.”(Pablo Neruda)
"Um português, uma tristeza; dois portugueses, uma discussão; três portugueses, uma revolução."
Nos últimos anos, Lagos tem assistido ao licenciamento e construção de um número muito significativo de novos hotéis. Alguns já se encontram em construção, enquanto outros aguardam ainda a conclusão dos respetivos processos de licenciamento.
Ao ler-se o artigo “O Acordo Ortográfico ainda não pode ser julgado” de Paulo Freitas do Amaral, verifica-se que o artigo é um primor de retórica histórica, mas peca por determinismo tecnológico. Ele olha para as redes de informação como um mero eco do Acordo, quando, na verdade, elas são o seu principal campo de batalha. Longe de tornarem o Acordo irreversível, as novas tecnologias expõem as suas incongruências diariamente, mantendo viva a grafia anterior nos motores de busca e permitindo, pela primeira vez na História, uma flexibilidade ortográfica em tempo real. Se o autor estivesse certo, a inteligência artificial já teria resolvido a questão; mas a realidade é que a IA gera constantemente erros e confusões entre as variantes, provando que o Acordo não é uma realidade cultural consolidada, mas uma norma administrativa em permanente tensão com a prática viva da língua, uma tensão que a tecnologia, afinal, tornou mais visível, e não mais pacífica.
Já não bastava reescrever as palavras, mas até já se começa a querer reescrever a memória