Doença Celíaca: uma doença, não uma tendência

Artigo escrito por Vítor Macedo Silva, membro da Direção do Grupo de Estudos Português do Intestino Delgado (GEPID), gastrenterologista no Hospital da Senhora da Oliveira (ULSAAVE)
No Dia Mundial da Doença Celíaca, que se assinala a 16 de maio, importa desmistificar uma ideia frequente: a Doença Celíaca não é uma moda alimentar nem apenas uma sensibilidade ao glúten. Trata-se de uma doença autoimune em que o consumo de glúten — proteína presente no trigo, centeio e cevada, por exemplo — desencadeia uma reação do sistema imunitário que lesa o intestino delgado.
Essa lesão compromete a absorção de nutrientes essenciais, podendo ter impacto em vários órgãos e sistemas. Em idade pediátrica, pode manifestar-se com atraso de crescimento, diarreia crónica ou distensão abdominal. Em adultos, os sinais podem ser mais subtis: dispepsia, anemia, cansaço, dores ósseas ou infertilidade. Em alguns casos, a doença permanece silenciosa durante anos, aumentando o risco de complicações. Esta diversidade torna o diagnóstico um verdadeiro desafio.
Estima-se que cerca de 1% da população mundial tenha Doença Celíaca, mas muitos casos permanecem por diagnosticar. A confirmação faz-se através da análise de auto-anticorpos específicos e, em muitos casos, por biópsia do intestino delgado em endoscopia digestiva alta. É fundamental que o diagnóstico seja feito antes de iniciar uma dieta restritiva sem glúten, para evitar falsos negativos.
O único tratamento eficaz é uma dieta rigorosamente isenta de glúten, para toda a vida. Mesmo pequenas quantidades de glúten podem desencadear atividade intestinal, ainda que sem sintomas imediatos. A longo prazo, a ingestão inadvertida de glúten pode contribuir para défices nutricionais, osteoporose e outras complicações graves como tumores do intestino delgado.
Felizmente, a oferta de produtos isentos de glúten tem aumentado exponencialmente, mas persistem desafios: o custo elevado destes produtos, o risco de contaminação cruzada na preparação dos alimentos e a necessidade de leitura atenta de rótulos equívocos.
Mais do que restringir a dieta, viver com Doença Celíaca envolve adaptação, conhecimento e apoio. Profissionais de saúde, serviços de restauração, escolas e famílias têm um papel essencial na inclusão e segurança do doente, contribuindo para uma melhor qualidade de vida.
Neste dia, o apelo é simples: aumentar a literacia em saúde, reconhecer sinais de alerta e combater mitos. A Doença Celíaca é uma condição séria mas, com diagnóstico atempado, acompanhamento adequado e adesão à dieta, é possível viver uma vida normal, com saúde, confiança e plena integração social.
Para saber mais sobre este e outros temas de saúde digestiva, consulte: www.saudedigestiva.pt.



