Comboios novos Algarve

Artigo de Opinião de Artur Morais
Muito bem. Está praticamente decorrido um mês desde que foi finalmente concretizada a transição elétrica na linha de Caminho de Ferro do Algarve em toda a sua extensão. O que se pode dizer sobre isto? Para alguns é a entrada do Algarve ferroviário no século XXI, para outros nada de especial mudou. A grande verdade é que esta Obra demorou muito desde a ideia inicial até à entrega da mesma. Décadas!!
A eletrificação da Linha do Algarve demorou, mas enfim, é tudo à portuguesa - a coisa fez-se e está feito. Depois tínhamos o sempre eterno debate sobre o material circulante, o qual uma vez mais é originário de linhas do Minho. As unidades de tração elétrica (UTE) daquela série já são dos anos setenta e oitenta do século passado, mas foram modernizadas já neste século. Nesse aspeto nada a apontar… mas as coisas nem sempre foram assim.
Vale a pena lembrar que a linha do Algarve nem sempre foi maltratada como nos últimos anos ou décadas.
A chegada do comboio ao Algarve nunca foi, historicamente, um processo fácil. Eram tempos difíceis entre os séculos XIX e XX. O dinheiro para Obras não abundava. Seja como for, com o passar dos anos lá fomos tendo mais troços em funcionamento. Recorde-se que o troço entre Portimão e Lagos já estava pronto, mas não entrou em funcionamento por causa do atraso da obra da ponte sobre o Rio Arade e por isso mesmo só em 1922 é que Lagos viu finalmente chegar o comboio para grande alegria das populações.
Nesses tempos, ainda não era a CP, mas sim CFE (Caminhos de Ferro do Estado) que detinha o chamado “Sul e Sueste” desde o Barreiro, pela linha do Sul até ao Algarve. O material circulante que era aqui utilizado estava em consonância com o que havia no resto do país e em todo o lado. Os famosos comboios a vapor foram utilizados por décadas, mas houve uma grande evolução nos anos a partir de 1950, na qual o Algarve não ficou para trás.
Tivemos direito a material Diesel - as velhas automotoras Nohab (na frente tinham umas listinhas vermelhas e brancas) entraram em circulação na região em 1954 (eram novas) e dessa vez o Algarve estava mesmo mais bem servido do que muitas outras zonas do país. Ao mesmo tempo, houve melhorias, novos apeadeiros (como o da Figueira, atualmente desativado) e mesmo novas estações, como a terminal Vila Real de Santo António / Guadiana, atualmente já descontinuada. A partir daí o problema até nem foi a transição para outras composições como os comboios “puxados” pelas famosas locomotivas vermelhas e brancas da série 1200 da CP, que andaram 33 anos pelo Algarve.
No fim do século XX começou a degradação porque começaram a ser utilizadas automotoras já com muitos anos de serviço, como as “cinzentas” fabricadas na Sorefame e posteriormente as “azuis” agora retiradas do serviço regional aqui, pois ainda serão usadas noutros pontos do país. Estas últimas, as UDD 0450 já tinham estado no Norte antes de se “fixarem” no Algarve. Velho material leva a dificuldades de manutenção, como ficou patente no número de comboios suprimidos nos últimos anos do nosso serviço Regional. Para não falar na deficiente climatização em dias de forte calor de Verão. Estamos a falar de uma situação terrível em que pessoas estiveram prestes a desmaiar a bordo. Recordo até uma turista (alemã?) grávida que embarcou em Lagos, mas acabou por sair logo em Portimão por não aguentar mais o calor. Foi mesmo à minha frente. Esta situação não podia continuar de maneira alguma como estava, daí a eletrificação ser uma prioridade assim como outro material circulante, ainda que antigo.
Os comboios “amarelos” são, pois, Unidades de Tração Elétrica (UTE) da série 2240, modernizadas a partir de uma série anterior das décadas de setenta e oitenta do século XX, mas já com características do atual século. Seja como for, isto representa a primeira grande evolução em setenta anos na ferrovia regional.
Quer tudo isto dizer que temos motivos para júbilo? Não e não. NÓS NÃO ESTAMOS SATISFEITOS. Nós, Algarvios temos de continuar a exigir tudo a que temos direito.
A Obra da Eletrificação, tecnicamente falando, terminou, mas ainda há coisas por concluir. Por exemplo a subestação (SST) elétrica de Marim (Olhão) ainda não está pronta. Por causa disso há restrições nos horários e na circulação na linha do Algarve. Estamos a falar restrições porque, quando está em marcha um comboio Alfa-Pendular ou IC, o volume de comboios regionais que pode circular ao mesmo tempo diminui. Isso leva a que a empresa não possa ainda ter os horários que poderia ter. Pode ser que nos próximos tempos isso seja resolvido, ou seja, nos primeiros meses do próximo ano, falando de uma forma realista.
É necessário fazer o reforço estrutural de algumas pontes metálicas que existem a leste de Faro para que o IC possa seguir até Vila Real de Santo António. Assim se poderá estudar o regresso desse serviço também para o ramal de Lagos. Isso seria excelente e poderia permitir uma futura reformulação total dos horários de serviço Regional.
Mas não fica por aqui. Sabemos que o concurso para a aquisição de comboios novos pela CP já passou pelos Tribunais e está resolvida. Mais ainda, o Governo decidiu investir e ativar uma cláusula para acelerar a entrega dos mesmos.
Finalmente material novinho em folha para a CP, onde se incluem 55 automotoras para o chamado serviço Regional. Sendo assim, porque não exigir uma “mão cheia” dessas Composições para o Algarve. Atenção: ninguém está a pedir que venham todos para cá. Só uns “quantos” para que possamos ter um serviço verdadeiramente renovado. Mas alguns perguntarão: bem, mas tal justifica-se?? Resposta: claro que sim, a linha do Algarve tem uma grande componente social, mas também comercial, como se prova pelas dezenas de milhares de turistas que a utilizam ao longo do ano. Um sucesso comercial, pelo menos em comparação com outras linhas fora dos grandes centros urbanos.
Há que separar desejos de realidades exequíveis. O que foi escrito acima é exequível sem grandes favores. É preciso é vontade.
Outras situações que alguns apontam é que não passam de miragens. Um bom exemplo é o da possível duplicação da Linha do Algarve. Um pesadelo técnico, um pesadelo financeiro para o Estado, que não se justifica pelo volume de tráfico ferroviário destes troços. Isto aqui não é propriamente Sintra – Lisboa ou Barreiro – Praias do Sado.
Teria sido possível fazer algo muito mais importante, a correção do troço, adaptando-o à nossa realidade socioeconómica. Teria sido, mas já não é. Como é que vamos fazer para levar o comboio a Silves (mesmo) ou a Albufeira ou Loulé? Os custos, as expropriações, a litigância nos tribunais…. que desgraça, que pesadelo, nem daqui a trinta anos estaria concluído se, todavia, fosse lançado hoje.
Portanto há que ser realista: a verdadeira alteração na linha que se pode fazer é o acréscimo de mais alguns pontos de cruzamento técnico entre comboios. Atualmente não são muitos e acabam por levar ao chamado efeito “bola de neve”, ou seja, quando um comboio se atrasa (na maioria das vezes por causa dos que chegam de Lisboa / Porto), leva a que outros tenham que esperar, perdendo tempo, o que leva a mais atrasos. Com mais locais de cruzamento, seja em estações ou apeadeiros ou mesmo em plena via (como na linha do Sul), essa questão seria resolvida com um investimento muito baixo em comparação com duplicação / alteração da via. Soluções simples quando os recursos são escassos devem ser estudadas e concretizadas.
Portanto, os atores políticos regionais e todas as partes interessadas devem continuar atentos à evolução da Ferrovia. Alterações e melhorias ainda por fazer, novo material assim que ele for entregue são exigências razoáveis. Não podemos ser eternamente o afilhado pobre que só ganha carros em segunda mão do pobre padrinho. Aqui sabe-se que o investimento poderá ser recuperado, comercialmente falando.
Finalmente, uma palavra para algo que entrou na agenda: o modal dos transportes.
A intermodalidade dos transportes públicos é já uma grande realidade, mas há bons passos a dar nesse quesito. Em boa verdade, a intermodalidade dos transportes públicos já é muito antiga. Temos um exemplo clássico aqui nas Terras do Infante. Após a chegada do comboio a Lagos, quem quisesse dirigir-se a Aljezur, tinha a famosa diligência (a cavalo) para o fazer. Também há muitos anos existia a famosa “camionete” equivalente ao atual Vamus, linha 47, que levava passageiros diretamente da antiga estação da CP de Lagos até Sagres. Em todo o Algarve há bons exemplos até porque para lá do Vamus, temos autocarros urbanos em várias cidades, como o serviço da “Onda” em Lagos. Nem tudo é ruim, aliás, hoje, temos coisas muito boas a oferecer aos utentes. Há que repetir até à exaustão: o que interessa é a complementaridade, algo muito mais importante do que a simples lógica da concorrência.
Mas a intermodalidade dos transportes púbicos sofre do mesmo problema que apontámos atrás: cuidado com objetivos irrealistas que podem levar a que certas ideias nunca cheguem a avançar, como pode ser o caso do tal Metrobus (à moda do Porto?) Olhão – Faro – Loulé. É mesmo necessário, sendo que existem inúmeros transportes Faro – Olhão? Não seria melhor uma lógica de complementaridade? Por exemplo, Loulé, Zona comercial, Parque das Cidades (correspondência com CP na zona do futuro Hospital Central), Universidade (Gambelas) e Aeroporto. Mais simples e totalmente útil para os utentes, quer do ponto de vista social ou comercial.
Assim que for possível uma estabilização dos horários da CP (regional), poderão ser encontradas soluções para melhorar esse quesito. Há que reforçar as ligações intrarregionais. Mais uma vez há uma componente social e outra comercial (turismo e não só) que são compatíveis entre si.
Terminando: hoje voltámos a falar abertamente da qualidade da oferta turística. Já não se trata de mais e mais turismo, mas sim de melhor qualidade a todos os níveis. Que ninguém duvide que sem uma melhor oferta de transportes públicos de toda a espécie, não poderemos concretizar esse objetivo.
Assim, a “nova” oferta ferroviária inaugurada na noite de 18 de julho é apenas um passo em direção a algo muito maior. Esperar não é uma opção. Há que acelerar e concretizar as boas ideias que existem e as soluções realistas e eficazes.








