A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA POBREZA E A CEGUEIRA SELECTIVA

A Pobreza não é Moeda Política dos de Ontem nem dos de Hoje
Observa-se, no debate público português a tendência preocupante da utilização da pobreza do passado como arma de arremesso político. Fotografias de miséria de outrora são ciclicamente recuperadas para, por contraste, glorificar o presente ou desacreditar o regime anterior. Esta estratégia, no entanto, peca por uma omissão gritante que é o esquecimento dos pobres de hoje.
A lógica é perversa. Ao fixar o olhar na fome de antigamente, desvia-se a atenção da fome que ainda existe, dos sem-abrigo que pernoitam nas nossas cidades, das famílias que recorrem aos bancos alimentares. Será que a crítica ao passado mata a fome do presente? Certamente que não porque os que fazem uso disso não são os pobres, mas sim os que se aproveitam do atual sistema. Trata-se, pura e simplesmente, de instrumentalização política. Falar mal do ontem serve para branquear as máculas do hoje e justificar os beneficiários do sistema atual, criando uma cortina de fumaça que impede a análise crítica da realidade contemporânea.
Esta abordagem revela uma pobreza intelectual e moral. Ao reduzir a História a um jogo de "nós contra eles", esquece-se que tanto ontem como hoje o mundo serve as elites. A diferença reside na forma, não na essência da exploração ou do esquecimento. Enquanto os partidários de um regime apontam o dedo ao adversário, os verdadeiros problemas estruturais, como seja a precariedade laboral, o custo de vida, a emigração qualificada, permanecem na sombra. É necessário um exercício de honestidade que consta em reconhecer as luzes e as sombras de todos os ciclos políticos, sem cair na armadilha de discutir quem foi pior, mas sim como podemos melhorar a vida de todos hoje.
António da Cunha Duarte Justo
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