Os políticos portugueses que se corresponderam com Marx e Engels

Há uma história do socialismo português que ainda permanece pouco conhecida e que nos conduz directamente ao século XIX, a uma época em que Portugal estava longe de ser uma potência industrial e em que o movimento operário começava apenas a organizar-se, mas na qual alguns portugueses já procuravam estabelecer contacto com os homens que, no centro da política europeia, estavam a transformar profundamente a forma de pensar a sociedade, o trabalho e a luta de classes. Foi precisamente a investigação que desenvolvi sobre José Fontana, publicada no meu livro José Fontana, o Ativista, que me permitiu aprofundar esta dimensão particularmente reveladora da história portuguesa, através da documentação relativa à correspondência mantida por Fontana com Karl Marx e Friedrich Engels, correspondência que ajuda a compreender não apenas a trajectória de uma das figuras fundamentais do primeiro movimento operário português, mas também a forma como as ideias socialistas internacionais começaram a chegar a Portugal através de homens que não se limitaram a ler Marx e Engels, procurando antes estabelecer com eles uma relação política directa. A pergunta que dá título a este artigo nasce precisamente dessa documentação e conduz-nos a uma pequena, mas extraordinariamente significativa, rede de portugueses que, nas décadas de 1870 e 1880, escreveram aos dois grandes nomes do socialismo europeu.
Quando se fala da influência de Marx em Portugal, existe frequentemente a tentação de construir uma narrativa retrospectiva demasiado linear, como se o marxismo tivesse chegado ao país já pronto, através de uma organização política perfeitamente definida, encontrando imediatamente um movimento operário preparado para o receber. A realidade foi muito mais complexa, porque as ideias socialistas chegaram através de jornais, livros, traduções, reuniões, associações operárias, viagens e contactos pessoais, numa Europa em que as fronteiras políticas não impediam a circulação cada vez mais intensa de pessoas e ideias. A Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em Londres em 1864, constituiu nesse processo uma das grandes redes através das quais os trabalhadores europeus começaram a estabelecer contactos entre si, e Portugal não ficou completamente à margem dessa experiência. Pelo contrário, a partir da década de 1870 encontramos em Lisboa homens que acompanhavam os debates internacionais, organizavam trabalhadores, publicavam jornais e procuravam comunicar directamente com aqueles que estavam no centro da Internacional.
É neste contexto que surgem José Correia Nobre França, José Fontana e Azedo Gneco, três nomes fundamentais para compreender a primeira ligação documental entre o movimento operário português e Marx e Engels. A estes deve acrescentar-se Antero de Quental, embora num plano diferente, porque a sua importância para a introdução e discussão das ideias socialistas em Portugal é indiscutível, mas não deve ser confundida com a existência de uma correspondência directa com Marx ou Engels que não esteja documentalmente demonstrada. A distinção é importante para quem pretende fazer História e não simplesmente repetir uma narrativa já construída, porque uma coisa é ter contacto intelectual com uma corrente de pensamento, participar na Internacional ou defender ideias socialistas, e outra, muito diferente, é podermos identificar uma carta, o seu autor, o destinatário, a data e o contexto em que foi escrita.
José Correia Nobre França encontra-se entre os primeiros protagonistas desta ligação. Tipógrafo e funcionário da Imprensa Nacional, esteve envolvido na organização dos trabalhadores e na Associação Internacional dos Trabalhadores, mantendo correspondência com Friedrich Engels num período em que o movimento operário português procurava ainda encontrar a sua própria estrutura e orientação. As cartas de Nobre França são particularmente importantes porque não representam a correspondência de um intelectual distante das organizações de trabalhadores, mas a voz de alguém directamente ligado ao mundo do trabalho e às primeiras experiências de organização operária em Lisboa. Quando escreve a Engels, Portugal deixa de ser simplesmente um país observado à distância pelo movimento socialista internacional e passa a ser também uma realidade sobre a qual os seus protagonistas procuravam informar directamente os dirigentes da Internacional.
José Fontana ocupa, porém, um lugar absolutamente central nesta história e é precisamente por isso que a sua correspondência constitui uma parte importante da investigação desenvolvida em José Fontana, o Ativista. Nascido na Suíça em 1840 e radicado em Portugal, Fontana tornou-se uma das figuras fundamentais da organização do movimento operário português, esteve ligado à Fraternidade Operária e participou no processo político que conduziria à fundação do Partido Socialista Português. A sua actividade não se limitou à organização dos trabalhadores, porque Fontana era também um homem ligado ao universo dos livros, da imprensa e da circulação de ideias, encontrando no Chiado um espaço privilegiado para essa actividade. É desse ambiente que emerge uma das cartas portuguesas mais interessantes dirigidas a Karl Marx, escrita em Lisboa a 20 de Dezembro de 1873.
A carta de Fontana a Marx é particularmente reveladora porque nasce de uma circunstância concreta do movimento operário português. Fontana escreve ao revolucionário alemão para lhe solicitar um texto que pudesse ser lido num sarau socialista destinado à angariação de fundos para trabalhadores perseguidos na sequência de uma greve dos manipuladores de tabaco. Não estamos perante uma referência distante a Marx nem perante a simples leitura de uma obra sua, mas perante um contacto directo, no qual um dirigente do movimento operário português procura a colaboração do próprio Marx para uma iniciativa que decorria em Lisboa. Fontana escreve-lhe como alguém que reconhece em Marx uma autoridade política e intelectual, mas também como alguém que entende que o movimento português pode e deve relacionar-se directamente com a rede internacional do socialismo.
A carta contém ainda um pormenor que demonstra até que ponto estas relações eram simultaneamente políticas e pessoais. Fontana pede a Marx informações sobre o seu genro, Paul Lafargue, e sobre a mulher deste, Laura Marx, filha de Karl Marx, que haviam passado por Portugal e estabelecido contactos com os meios socialistas portugueses. O episódio permite-nos perceber que a ligação entre o movimento operário português e o círculo de Marx não se fazia apenas através de livros e jornais, mas também através de pessoas que viajavam, se conheciam, participavam em reuniões e transportavam consigo contactos que atravessavam as fronteiras nacionais. Lisboa estava, assim, muito mais ligada à rede internacional do socialismo do que uma leitura superficial da história política portuguesa poderia fazer supor.
Azedo Gneco representa uma etapa igualmente importante desta história. Operário gravador e dirigente socialista, esteve ligado à Fraternidade Operária e manteve correspondência com Friedrich Engels durante a década de 1870. São conhecidas três cartas de Gneco dirigidas a Engels, conservadas no International Institute of Social History, em Amesterdão, e publicadas por César de Oliveira. Nelas encontramos notícias sobre a actividade do movimento socialista português e sobre as disputas ideológicas que atravessavam a Internacional, permitindo perceber que os socialistas portugueses não estavam simplesmente a importar uma doutrina estrangeira, mas participavam, dentro das suas possibilidades, nos grandes debates que dividiam o movimento operário europeu. A correspondência de Gneco é particularmente significativa porque demonstra a existência de uma relação continuada com Engels e porque permite observar como as questões políticas portuguesas eram apresentadas a uma das principais figuras do socialismo internacional.
É precisamente aqui que surge uma questão que, para um historiador, é tão interessante como a própria existência das cartas: onde estão hoje esses documentos? A resposta leva-nos para Amesterdão, mas também para os arquivos portugueses e para o trabalho dos investigadores que, ao longo das décadas, procuraram localizar, identificar e publicar esta documentação. O International Institute of Social History, em Amesterdão, conserva uma das mais importantes colecções mundiais sobre a história do movimento operário e socialista e guarda documentação proveniente dos espólios relacionados com Marx e Engels, incluindo correspondência enviada por portugueses. É nesse universo documental que se encontram as cartas de Azedo Gneco a Engels, posteriormente publicadas por César de Oliveira. Em Portugal, a Fundação Mário Soares e Maria Barroso conserva igualmente documentação relacionada com esta história e com a posterior investigação e reprodução das cartas, permitindo acompanhar o percurso de uma documentação que atravessou diferentes mãos, instituições e gerações de historiadores.
O percurso das cartas é, por si só, uma pequena história dentro da própria História. Uma carta escrita em Lisboa por um trabalhador ou dirigente socialista era enviada para o estrangeiro, entrava no círculo de Marx ou Engels, era eventualmente conservada nos seus papéis, atravessava depois décadas de transformações políticas e institucionais e acabava por chegar aos arquivos onde hoje pode ser consultada pelos investigadores. Parte desta documentação sobreviveu; outra parte perdeu-se, como aconteceu com tantos arquivos políticos e pessoais do século XIX, razão pela qual não podemos transformar aquilo que hoje conhecemos na totalidade da correspondência que efectivamente existiu. Aquilo que chegou até nós é, por isso, simultaneamente fragmentário e precioso, porque cada carta conservada permite recuperar uma voz individual num momento em que o movimento operário português ainda se encontrava numa fase de formação.
O trabalho de César de Oliveira foi decisivo para que essa documentação pudesse ser conhecida de forma mais ampla. Em 1978 publicou 13 Cartas de Portugal para Engels e Marx, reunindo correspondência que constitui uma das fontes fundamentais para o estudo das relações entre o movimento operário português e os dois grandes nomes do socialismo europeu. A publicação destas cartas permitiu que documentos dispersos em arquivos internacionais fossem incorporados na investigação histórica portuguesa e que nomes como Fontana, Nobre França e Gneco pudessem ser estudados não apenas através das memórias posteriores dos seus contemporâneos, mas através daquilo que eles próprios escreveram. No caso de Fontana, essa documentação assume para mim uma importância particular, porque constitui também uma das bases documentais da investigação que desenvolvi em José Fontana, o Ativista, onde procurei reconstruir o seu percurso político e intelectual e devolver ao activista suíço-português o lugar que merece na história do movimento operário português.
É precisamente a existência destes documentos que nos permite distinguir entre aquilo que podemos afirmar com segurança e aquilo que pertence já ao domínio da interpretação. José Fontana escreveu a Marx; José Correia Nobre França escreveu a Engels; Azedo Gneco manteve correspondência com Engels; Antero de Quental desempenhou um papel fundamental na recepção do socialismo e da Internacional em Portugal, mas a sua posição deve ser analisada dentro da complexidade intelectual da Geração de 70 e não transformada retrospectivamente num marxismo que não corresponde integralmente ao seu pensamento. Esta precisão não diminui a importância de Antero, antes pelo contrário, porque permite compreender melhor a diversidade das correntes que participaram no nascimento do socialismo português e evitar a ideia de que todos os caminhos conduziam inevitavelmente a Marx.
Também a publicação dos primeiros textos socialistas em Portugal demonstra que existia já uma rede intelectual e política capaz de receber e difundir as ideias provenientes do exterior. O jornal O Pensamento Social, ligado aos círculos operários de Lisboa, publicou textos da Associação Internacional dos Trabalhadores e o Manifesto do Partido Comunista, permitindo que as ideias de Marx e Engels circulassem num país onde a industrialização era ainda limitada e onde o movimento operário estava longe da dimensão que alcançaria noutras sociedades europeias. A questão fundamental não é, portanto, saber se Portugal era ou não um país marxista na década de 1870, porque evidentemente não o era, mas perceber como determinados homens começaram a estabelecer uma ponte entre a realidade portuguesa e uma nova linguagem política que estava a transformar a Europa.
É nesse ponto que estas cartas ganham uma importância histórica que ultrapassa os nomes dos seus destinatários. Elas mostram-nos a existência de uma primeira internacionalização efectiva do movimento operário português, realizada não por grandes partidos ou por estruturas estatais, mas por homens que se conheciam pessoalmente, que trabalhavam em tipografias, livrarias e associações operárias, que publicavam jornais, participavam em greves e procuravam estabelecer relações com organizações estrangeiras. O facto de uma carta sair do Chiado e chegar ao círculo de Karl Marx ou de um operário português escrever a Friedrich Engels a partir de Lisboa demonstra que as fronteiras nacionais, embora politicamente muito concretas, começavam a ser atravessadas por uma nova comunidade de ideias e de interesses sociais.
E talvez seja precisamente essa a dimensão mais interessante desta história: os portugueses que se corresponderam com Marx e Engels não eram figuras que observassem a transformação europeia à distância, mas homens que procuraram participar nela a partir da sua própria realidade. Nobre França escrevia a Engels a partir do mundo da tipografia e da organização operária; Fontana escrevia a Marx a partir do Chiado, procurando apoio para uma iniciativa concreta de solidariedade com trabalhadores portugueses; Gneco mantinha correspondência com Engels e procurava acompanhar os debates que dividiam a Internacional; Antero de Quental, por seu lado, ajudava a introduzir no ambiente intelectual português uma nova reflexão sobre a questão social e sobre a crise da sociedade liberal. Eram percursos diferentes, com influências diferentes e até com concepções diferentes sobre o futuro da sociedade, mas todos contribuíram para que Portugal deixasse de estar completamente à margem das grandes discussões sociais que atravessavam a Europa.
O mais fascinante é que podemos hoje seguir parte desse percurso através dos próprios documentos. As cartas partiram de Portugal, circularam pelo espaço político europeu, foram guardadas ou preservadas em espólios que acabariam por integrar instituições como o International Institute of Social History de Amesterdão, foram posteriormente localizadas e estudadas por historiadores, publicadas por César de Oliveira em 13 Cartas de Portugal para Engels e Marx e, no caso de José Fontana, retomadas e integradas na investigação que publiquei em José Fontana, o Ativista. O documento histórico fez, assim, uma viagem semelhante à das próprias ideias que transportava: partiu de uma Lisboa ainda marcada por uma sociedade liberal e pré-industrial, entrou na rede internacional do movimento operário e regressou, mais de um século depois, às mãos dos historiadores que procuram compreender como Portugal se relacionou com a grande transformação política e social do século XIX.
É por isso que perguntar quem foram os portugueses que se corresponderam com Marx e Engels é muito mais do que procurar uma lista de nomes curiosos para acrescentar à história do marxismo português. É procurar o momento em que alguns homens começaram a perceber que aquilo que estava a acontecer nas fábricas, nas associações operárias, nas ruas e nos jornais de Londres, Paris, Genebra ou Berlim tinha também consequências para Portugal e que o movimento dos trabalhadores portugueses podia estabelecer uma relação directa com uma transformação que já ultrapassava largamente as fronteiras nacionais. As cartas de Nobre França, Fontana e Gneco são testemunhos dessa mudança e constituem, juntamente com a documentação relacionada com Antero de Quental e com os primeiros jornais socialistas portugueses, uma das melhores portas de entrada para compreender como se formou a primeira consciência internacional do movimento operário português. Antes de o socialismo se transformar numa força política organizada e muito antes de a República lhe dar uma nova dimensão, houve homens que escreveram para além das fronteiras portuguesas, que procuraram interlocutores na Europa e que fizeram chegar a Marx e Engels notícias de uma sociedade portuguesa que começava também ela a descobrir a questão social; é nessas cartas, conservadas em arquivos, reproduzidas em livros e recuperadas pela investigação histórica, que encontramos não apenas a presença de Marx e Engels na história de Portugal, mas sobretudo a presença de portugueses na história internacional do socialismo.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor




