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ILGPs: A voz (precária) de quem não ouve

ILGPs: A voz (precária) de quem não ouve

Dia do Intérprete de Língua Gestual Portuguesa

No próximo dia 22 de Janeiro, domingo, celebra-se o Dia do Intérprete de Língua Gestual Portuguesa (LGP). Esta efeméride remete a 1991, dia em que foi fundada a primeira Associação de Intérpretes de LGP (AILGP). Segundo a lei 89/99 de 5 de Julho, os intérpretes de Língua Gestual Portuguesa (ILGP) são “os profissionais que interpretam e traduzem a informação de língua gestual para língua oral ou escrita e vice-versa, por forma a assegurar a comunicação entre pessoas surdas e ouvintes”.

Mas serão os ILGP apenas isso? “Acredito que somos muito mais! Afinal de contas, somos a ponte de comunicação entre a comunidade surda e a ouvinte e temos também um dever ético de sensibilização, promovendo a acessibilidade.”, afirma Teresa Figueiredo, ILGP e uma das co-fundadoras da Hands Voice. “Mas ainda há muito por fazer no que toca à acessibilidade para as pessoas surdas. Se por um lado, vemos os telejornais de vários canais a serem interpretados em LGP, por outro, continua a haver uma seleção de horários e de programas em detrimento de outros, já para não falar das barreiras no acesso ao atendimento nos serviços públicos.”, acrescenta.

Foi com base na lacuna da acessibilidade em diversas áreas e setores, que a Hands Voice desafiou a comunidade surda a descrever a importância dos Intérpretes de Língua Gestual nas suas vidas e a identificar em que situações gostariam de ter garantido um ILGP: https://we.tl/t-qqfZ2HHFvm

Desde a cultura aos serviços públicos, o que é certo é que existem ainda diversos setores onde ainda é necessário criar acessibilidade através da Língua Gestual Portuguesa, reconhecida na Constituição desde 1997.

“Se, por um lado, estamos a sentir que aos poucos a LGP tem ganho cada vez mais visibilidade e, consequentemente, o reconhecimento da nossa profissão, por outro, é estranho pensar que uma comunidade que existe desde sempre, e que fala uma língua que é constitucionalmente reconhecida há mais de 25 anos, ainda tenha de lutar para garantir que as janelas dos intérpretes nos telejornais seja. maiores, que a cultura passe a olhar para a comunidade surda como um público válido, que o setor publicitário se lembre que há um público-alvo a ser desvalorizado nas suas campanhas ou que os profissionais de recursos humanos desconsiderem este tipo de perfis.”, remata.

Segundo Sandra Faria, também intérprete e co-fundadora da Hands Voice, “o Estado não garante a acessibilidade à população surda nos serviços públicos. Por causa da pandemia, passámos a ver na televisão o intérprete em todas as conferências de imprensa da Direção Geral de Saúde. Apesar de alguns canais não o captarem, fazendo planos mais apertados, foi uma grande evolução. Mas, agora, assiste-se a um passo atrás... As comunicações do Governo não são acompanhadas de interpretação em LGP nas conferências de imprensa e o acesso à informação, supostamente, é um direito de todos… Vemos muitas vezes imagens de outros países que o fazem, mesmo em situações de catástrofe, precisamente porque a informação é e deve ser transmitida para todos. Não se pode deixar ninguém à margem.”.

No entanto, a valorização da Comunidade Surda tem sido lenta, algo que é também refletido nas condições de trabalho dos ILGP. Recorde-se que em 2019, 2020 e 2022 o Governo aprovou em Orçamentos de Estado a contratação de 25 intérpretes de Língua Gestual Portuguesa para o SNS. A última proposta, apresentada pela deputada Inês Sousa Real, aprovada com votos favoráveis do PAN, PS, BE, PCP e Chega, ainda não avançou.

“A profissão do Intérprete de Língua Gestual Portuguesa continua a ser fortemente desvalorizada, seja pelo desconhecimento de que existe e que é reconhecida na Lei 89/99 (ainda que a aguardar pelo Governo a aprovação da sua regulamentação, que tem sido constantemente adiada), seja pelas características específicas e as funções que lhe compete. A maior parte dos colegas opta pela área da educação, que apesar de contratados anualmente, alguns vinculam com as escolas, garantindo mais estabilidade. Outros, que se devem contar pelos dedos de uma mão, são Técnicos Superiores e sem carreira própria; e uns poucos que trabalham como freelancers, tal como nós, no fundo.”, acrescenta Sandra. “Houve uma evolução significativa nos últimos anos, é certo, e há cada vez mais entidades na cultura, televisão e outros a quererem garantir este acesso, mas ainda são trabalhos pontuais e com condições precárias, o que leva a que muitos ILGPs não apostem na sua carreira como freelancer e chegam mesmo a mudar de profissão. Acredito que vamos, em poucos anos, assistir ao decréscimo do número de intérpretes com a experiência e competência necessárias para assegurar trabalhos de alta responsabilidade e especificidade como televisão, sistemas jurídicos, ensino superior, porque as condições que lhes são apresentadas não são adequadas e, por isso, optam por outras mais seguras. Estamos numa fase estranha, diria… Sinto que temos uma exigência enorme a todos os níveis, muitas horas de trabalho, temos de saber fazer de tudo e de ser muito bons, mas temos poucas condições e, por outro lado, o mercado ainda não sabe distinguir se o ILGP é competente ou não para determinada função.”, assume com preocupação.

Numa altura em que a inclusão, a acessibilidade e a diversidade são temas de ordem, a Hands Voice desafia as entidades e empresas a repensarem e adaptarem as suas estratégias, valorizando os profissionais de Interpretação de Língua Gestual Portuguesa, assim como a Comunidade Surda, como fator de crescimento, evolução, produtividade, desempenho e, acima de tudo, com foco na mudança deste paradigma em Portugal.

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