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Opinião: «NA PONTA DO LÁPIS – A viagem da Natália Rosa»

Opinião: «NA PONTA DO LÁPIS – A viagem da Natália Rosa»

Artigo de Opinião de Domingos Pestana, Poeta.

Deixava-se o cais T zarpando para levante, olhando a miudagem que desportivamente aprendia a nadar, atirando-se à água da ria na baixa-mar, qual voo d’Icaro naquele cais. A Gracindinha, velha embarcação embalada na correnteza, prossegue para a ilha da Armona com os passageiros distribuídos pelos bancos: meia dúzia de famílias; esposais aprisionados na âncora do casamento com seus filhotes; dois casais de touristes, que se presume serem namorados, um de tez branca o outro a lembrar alguém do Oriente profundo; elas loirinhas, por certo, do norte da Europa; grupos de jovens estudantes - raparigas que irão jogar às cartas e ao prego, eles à bola; também sentado à popa, seguindo a contínua esteira que a hélice da embarcação forma, vai embevecido um par, lançando ternos e recíprocos olhares e algumas palavras mélicas, gestos amorosos e que, correspondidos, irão brincar, apaixonar-se e entrelaçar-se…

A Ria Formosa, a nascente depois de deixada a doca, vê-se de um lado uma curta língua de terra reminiscência do Pedro José, onde outrora laborou uma fábrica de conservas, hoje lamaçal ilustrado por esqueletos arqueados de madeira apodrecida, um que se parece com o que foi uma proa e agora encavalitada na areia escura, para sempre inerte, supondo-se que em tempos tenha sulcado estas águas. Do lado oposto, a ilhota do Coco, surgindo vagarosa para desaparecer lentamente e, à ilharga, num branco sujo jaz inerte o Moinho de Maré, velho como os tempos, onde a moagem existia. Logo um pouco adiante, acorrentada ao fundo numa pouta, a bóia vermelha de sinalização do canal que dá acesso à velha barra e onde, não muito distante, existiu uma fortaleza edificada em 1747 que se foi deformando com o terramoto de 1755, sendo a força indómita das correntes costeiras a que a destruiu por completo. Aquando das Invasões Francesas, ficou para a história o Loghar d’Olhãm, onde o povo numa genuína revolta, agiganta-se contra o invasor devido ao edictal de Junot, emanando ordens e confiscando o labor do povo, através do pagamento coercivo de impostos e proibições várias, com normas que os atingem despudoradamente e que, desobedecidas, os condenam à morte.

Actos, como o saque às pratas da igreja, não podem ficar impunes. Os franceses, referindo-se aqueles pescadores dizem: “má gente, não nos olham com olhos direitos”. Na noite de 12 de Junho, véspera de Santo António, o povo diverte-se angustiado, aguardando o dia seguinte para a celebração das festividades na igreja matriz, onde o ponto alto são as cerimónias em honra da Nossa Senhora da Conceição. Antes de findar a liturgia, João da Rosa destapa as armas reais que encimam o altar, as quais estavam encobertas por ordem do ocupante, acto em clara desobediência que provoca enorme euforia entre
os presentes. O dia 16 de Junho de 1808 coincide com a quinta-feira, Dia de Corpo de Deus, festa de culto católico, onde no adro da igreja matriz o povo depara-se com novo édito e aplaude a mansidão dos soldados portugueses, animando-os a se lhe juntar, para combaterem os revoltados soldados do outro lado da fronteira. O coronel José Lopes de Sousa, que se tinha demitido do cargo de governador de Vila Real de Santo António, para não servir o ocupante surge, nesse momento, no adro e, ao ler aquele libelo, rasga-o e bradando ao povo profere: “já não há homens marítimos como os de antigamente” ao que os pescadores respondem estar dispostos a demonstrar o contrário, elegem-no como seu líder, aprisionando quase de imediato cerca de 60 militares de Napoleão. José Lopes de Sousa organiza a defesa, enviando vários
pescadores a dois fortes existentes na imediação das barras, para resgatarem armas e munições. Homens e mulheres, rapazes e raparigas e até, religiosos e padres, pegam em armas; são forquilhas, fisgas, besteiros, velhas espadas, punhais, facas, paus, cacetes e pedras, armamento que não é o melhor, mas, “todos unidos a uma só voz e a uma só vontade” estão dispostos a morrer pela liberdade e pela família real.

Os sinos tocam a rebate incessantemente, convocando o povo de toda a redondeza para a luta que se avizinha. Sebastião Martins Mestre separa-se da armada inglesa aliada de Portugal, ancorada no rio Guadiana, dirigindo-se a Ayamonte, roga ajuda bélica para ajudar o povo olhanense, que se consubstancia no fornecimento de 130 espingardas que chegam na noite de 17 de Junho, sendo entregues ao povo “ todos ficaram
muito contentes e fortes como se estivessem na melhor praça de armas das mais fortes que houvesse no mundo”. A povoação encontra-se entre duas cidades inimigas (Faro e Tavira), infestada de inimigos. Nos dias 16 e 17 de Junho, os ocupantes tentam reunir apoio desde Vila Real de Santo António, reconstruída e refundada há apenas 32 anos é Faro, mas sem qualquer sucesso. Finalmente no dia 18 de Junho, os revoltosos emboscam na ria três barcos, vindos de Tavira com franceses, para auxiliar asa suas tropas em Faro.

Aprisionando cerca de uma centena, além de armas e outra carga, também a informação da sua intenção de “virem arrasar os do Loghar d’Olhãm e passar tudo e todos a espada”, mas ao povo da terra “nada disto lhe mete medo, antes lhe meteu mais ânimo” e assim vão camuflar-se para emboscar os invasores na Ponte de Quelfes, que se estima em 185, e que apesar da desigualdade de meios atacam perseguindo-os denodadamente até à Meia Légua, vencendo-os. É o princípio do fim para a Invasão, dado que as mulheres da terra forjaram falsos boatos dizendo que os ingleses já os estavam a auxiliar, apavorando-os.

A 23 de Junho a notícia do levantamento já é do conhecimento de toda a província: “se deitaram as tropas francesas fora deste Reyno do Algarve, ficando livre desta maldita nação”. A 7 de Julho zarpa o caíque Bom Sucesso com destino ao Brasil, para anunciar a Boa Nova ao príncipe regente dom João. Setenta e sete dias após atravessarem o Atlântico de Norte para Sul, são recebidos no Rio de Janeiro pelo monarca com espanto, mas com alegria, que recebe a Boa Nova. Após o regresso ao Reyno, o Rey dom João em sinal de reconhecimento eleva o “Loghar” a “Vila de Olhão e da Restauração” e que goze de todos Privilégios, Liberdades, Franquezas, Honras e Isenções, de que gozam as vilas mais notáveis do Reyno.

Entretanto o barco aproa à ponte-cais, manobrado pelo mestre e timoneiro José Belchior. O irmão António arroja os cabos para a amarração mas, antes do desembarque, os passageiros são avisados de que o último barco é às oito da tarde e perdendo-o ficarão sozinhos na ilha entanguidos. José Belchior e o irmão António descarregam as “compras” encomendadas pelo senhor Tólinhas.

A maioria dos veraneantes permanece próximo da “barreca” que vende pirolitos, cervejas e águas esfriadas em geométricos blocos de gelo, embrulhados em larga serapilheira. O estabelecimento do senhor Tolinhas, que foi considerado um dos melhores guarda-redes do Sport Lisboa e Lagos, posteriormente Sport Lagos e Benfica nos anos de 1937 a 1941; seu nome de baptismo: António da Glória Pião, dado o seu valor desportivo, transferiu-se para o Sporting Clube Olhanense, então um dos grandes do futebol nacional, onde defendeu a sua baliza nas épocas de 1942 até 1946 - 1ª divisão nacional. Derrotou Porto, Sporting e Benfica, entre outros, e obteve, no outrora estádio Padinha, a alcunha de Tolinhas. No dizer popular, porque, por cada golo que sofria, batia com a tola num dos postes da baliza e, por ter umas pernas finíssimas lembrando linhas, aliado ao diminutivo Tó, compunha aquele nome.

Entretanto, os estrangeiros calcorreiam os rectângulos da passadeira de cimento, ficando deslumbrados com quatro casas de alvenaria erigidas no pós guerra, talvez com os largos proveitos da venda de conservas de peixe aos beligerantes de cada lado da contenda aquando da 2ª guerra mundial, porque sabe-se uns eram a favor dos alemães e outros dos aliados, casas onde a passadeira finda não é obstáculo para prosseguir mais umas dezenas de metros até dar de caras no mar imenso que, olhado de sotavento a barlavento, oferece a natureza em estado puro. Mar que os marítimos da terra aguardam em sonhos o surgir de sereias ondulando seus corpos na mansa rebentação, de seios erguidos ao céu, qual desejada Floripes. Num apelo velho dos tempos, os veraneantes passeiam-se de cú ao léu, disfrutando a natureza num profundo mergulho celestial. Ao final da tarde regressam a terra no pequeno barco que já conhecem, balançando com o cachão das traineiras que demandam o mar para a pesca da sardinha, cavala e o que surgir. Contentes
vão os namorados na proa da felicidade, com salpicos de onda que lhes esfriam a face e que, desembarcado, cada qual segue rumos destintos.

O José Belchior, enquanto jovem, aprendeu com seu pai, o senhor Faz-Gostos, as andanças marítimas ao redor da ilha da Culatra e fantasiava com os amigos um dia chegar à Austrália, navegando pelo Canal do Suez…agora adulto, é um homem de porte atlético, que no tempo militar optou por ingressar na marinha de guerra onde, “filho da escola” no Alfeite, navegou mares e mares e conheceu as artes peculiares que o habilitarão um dia para outras navegações.

Vive-se o ano de 1958, em que, o general Humberto Delgado se ganhar as eleições para a Presidência da República de Portugal, em resposta a um jornalista, diz: - “Obviamente demito-o”. O sonho de José Belchior é o de fugir com a sua amada e sonhar outros sonhos, o que se consubstancia ao adquirir um barco a uns gauleses que vivem na ilha. Em Outubro, o mês de uma outra revolução e depois de meses de preparação, zarpam Atlântico fora, rumo às costas do Magreb do Emir Hassan II de Marrocos, onde aportam a Agadir.

Mas, na ausência de documentação, são forçados a navegar para sul até às areias de Dakar, colónia francófona que os acolhe. Desancoram do Senegal em 1959, infiltrando-se no vasto oceano que por entre vagas e escarcéus o experimentado marinheiro tem em inúmeras e terríveis ocasiões que aguentar a embarcação armando uma âncora que flutua para a aproar à vaga, mantendo assim o barco na posição óptima para não submergir, abrigam-se na exígua cabine sobrevivem. É um obstinado homem na eterna crença de vencer, ultrapassando obstáculo após obstáculo, nos dias que se sucedem e que nunca são iguais, sempre sempre na esperança tenaz de ser bem-sucedido.

Ocorrem manhãs e noites, umas solarengas outras de negritude, acompanhando o sussurro da vaga que vai de encontro à pequena embarcação de 6 metros e meio por 2 metros de boca, vai sonhando com uma
restinga algures no meio do oceano para retemperar forças … É um homem livre, observando dia após dia o firmamento incomensurável, interroga-se, quantos milhares de milhares de anos de gerações se passaram para eu estar aqui? Que soma tremenda de conhecimento se acumulou, para ser eu? Fica desorientado quando as nuvens não possibilitam perscrutar a Estrela Polar, para reencontrar o Norte, e também a profunda escuridão não o deixa saber onde está o Oriente, direcção onde surge a aurora solar e desnorteado ficava.

Mas, a bordo, os instrumentos de navegação reduzem-se a uma bússola, conhecido pelos chineses desde tempos imemoriais e normalmente decorada com a Rosa dos Ventos que indica os rumos, com o Norte assinalado com uma flor-de-lis e um astrolábio para medir a altura dos astros acima do horizonte. No ambiente nocturno, os astros são um auxiliar precioso para manter a rota. É umdesafio do tamanho do mar, incomensurável e cogita, isto de ser prefeito é uma chatice, quando arribar, não sou um herói, sou um simples homem que sobrevive no tempo. Um dia, depois de imensas jornadas com os mantimentos
praticamente findos, são avistados pelo Kalinga, petroleiro com bandeira da Holanda, que se depara com aqueles náufragos e lhes presta todo o apoio possível, eles que estão apenas a 200 milhas da costa sul-americana.

Continuam a epopeia, agora com o ânimo redobrado, um inabalável optimismo em alcançar terra, que agora está perto, o que veio a acontecer a 22 de Março em Porto Seguro. Esqueléticos e extenuados pela carente dieta de arroz com os peixes voadores, que de encontro ao velame tombam no convés, resistem 99 dias rodeados de mar, ondas, sol a nascente e sol a poente, nuvens de todas as formas, noites de estrelas e de breu e uma inabalável ambição e confiança, num optimismo em que só é vencido, quem desiste de lutar, pois a sorte protege sempre os audazes … por vezes … Desembarcados, e depois com a ajuda da Casa de Portugal, estabelecem-se refazendo a vida, mas sem grande sucesso. Em Olhão surge a notícia de que um barco tinha arribado no Brasil, é a “Natália Rosa”, com dois homens e uma mulher grávida. Na Culatra souberam logo quem são. Familiares e amigos exultam pelo sucesso da epopeia, pois o José Belchior e a Felismina são agora os heróis como no passado outros deram nome a Portugal.

Passados anos, porque a vida dá inúmeras e indecifráveis voltas divorciam-se. Um dia, e porque a vida é indiscutivelmente um rodopio, reencontram-se na Culatra, em 2001, relatando então o José Belchior pormenorizadamente a aventura. Num outro dia, igual a milhões de dias, em que depois de um princípio o dia do eterno final surge em 2015.

Domingos Pestana – Lagos 15 de Fevereiro de 2021

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