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Diabetes e fígado: uma relação que não deve ser esquecida

Diabetes e fígado: uma relação que não deve ser esquecida

Artigo de Opinião de Rita Serras Jorge, Assistente Graduada de Medicina Interna, Subespecialista em Doenças do Fígado, ULS Médio Tejo, membro da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF)

Quando se fala em Diabetes, é habitual associá-la aos níveis de açúcar no sangue, à insulina e às possíveis complicações que podem afetar órgãos como o coração e os rins. No entanto, existe outro órgão que também merece especial atenção: o fígado. Este desempenha um papel fundamental no metabolismo da glicose e das gorduras, estando, por isso, diretamente relacionado com as alterações metabólicas associadas, sobretudo, à diabetes tipo 2.

Esta relação é particularmente evidente na esteatose hepática associada à disfunção metabólica, uma doença caracterizada pela acumulação de gordura no fígado. Está frequentemente associada a fatores como o excesso de peso, a obesidade, a resistência à insulina e a Diabetes Mellitus tipo 2.

A ligação entre estas duas condições vai além de uma simples associação. Na Diabetes tipo 2, o organismo apresenta dificuldade em utilizar a insulina de forma eficaz, contribuindo para o aumento dos níveis de glicose no sangue. Em simultâneo, as alterações do metabolismo podem favorecer a acumulação de gordura no fígado. Por sua vez, esta acumulação de gordura agrava a resistência à insulina, criando um ciclo que contribui para o desenvolvimento e progressão das alterações metabólicas.

Um dos principais desafios desta doença é o facto de poder evoluir durante vários anos sem provocar sintomas evidentes. A presença de gordura no fígado não significa, necessariamente, que exista uma doença hepática avançada. No entanto, em algumas pessoas, pode desenvolver-se inflamação e, posteriormente, fibrose, que corresponde à formação de tecido cicatricial no fígado. Em situações mais graves, e ao longo do tempo, esta evolução pode conduzir a cirrose e aumentar o risco de outras complicações hepáticas, como, por exemplo, o de cancro do fígado.

Por este motivo, o acompanhamento das pessoas com Diabetes deve ir além do controlo dos níveis de glicose no sangue. É fundamental excluir a presença de fibrose hepática avançada e é igualmente importante avaliar outros fatores, como a alimentação, a prática de atividade física, o peso corporal, a tensão arterial e os níveis de colesterol e triglicerídeos, uma vez que todos contribuem para a saúde metabólica.

A boa notícia é que as medidas recomendadas para prevenir e controlar a diabetes tipo 2 também têm efeitos positivos na saúde do fígado. Uma alimentação equilibrada, a prática regular de atividade física e, quando necessário, uma perda de peso gradual podem ajudar a reduzir a gordura acumulada neste órgão e a melhorar o funcionamento do metabolismo.

Neste Dia Mundial da Diabetes, assinalado a 14 de novembro, importa reforçar a importância de olhar para esta doença de uma forma abrangente. Controlar a diabetes não significa apenas manter os níveis de açúcar no sangue dentro dos valores recomendados. Significa também cuidar dos diferentes órgãos e sistemas que podem ser afetados pelas alterações metabólicas.

O fígado, apesar de muitas vezes não apresentar sinais de alerta, é um desses órgãos. Conhecer os fatores de risco, manter um acompanhamento médico regular e adotar hábitos de vida saudáveis são passos fundamentais para prevenir complicações e preservar a saúde a longo prazo.

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