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As dívidas das presidenciais de 86

As dívidas das presidenciais de 86

A campanha presidencial de 1986 ficou gravada na memória coletiva pelo seu desfecho político, mas também por um episódio menos conhecido e revelador da dimensão humana e ética de um dos seus protagonistas: a dívida de campanha de Freitas do Amaral, no valor de 60 000 contos, o que corresponde hoje a cerca de 300 000 euros. Uma soma enorme para a época. Muito dinheiro.

Durante a campanha existiu um compromisso político claro. O PSD deu a sua palavra de que os encargos financeiros da campanha seriam assumidos. Essa palavra, porém, não foi cumprida. Terminada a eleição, as faturas continuavam por pagar e a responsabilidade acabou por recair exclusivamente sobre o candidato.

Perante a situação, Freitas do Amaral não procurou escapatórias nem transferiu culpas. Arregaçou as mangas e assumiu integralmente uma dívida que não tinha criado sozinho. Fê-lo sem dramatização pública e sem transformar o episódio numa arma política. Optou por trabalhar.

Seguiram-se momentos duros, de grande exigência pessoal e financeira. Para fazer face aos compromissos, Freitas do Amaral recorreu ao seu saber jurídico. Preparou milhares de cartas dirigidas a empresários de todo o país, explicando a situação e solicitando apoio. Em simultâneo, intensificou a elaboração de pareceres em direito administrativo, área em que era amplamente reconhecido, utilizando esse trabalho especializado como principal meio para gerar rendimentos.

O processo foi longo e exigente. Cada parecer, cada contacto, cada pagamento feito representava um passo no caminho da responsabilidade assumida. Não houve atalhos. Tudo foi pago, até ao último escudo.

Este episódio das presidenciais de 1986 revela uma dimensão muitas vezes esquecida da política: a do carácter pessoal. Quando a palavra dada por outros falhou, Freitas do Amaral manteve a sua. Assumiu encargos pesados, trabalhou incansavelmente e honrou compromissos que poderiam ter ficado no limbo.

As dívidas das presidenciais de 86 não são apenas um episódio financeiro. São um testemunho de ética, responsabilidade e respeito pela palavra dada. Um exemplo raro, mas esclarecedor, de que na política, como na vida, há quem escolha cumprir, mesmo quando isso custa caro.

Paulo Freitas do Amaral

Professor, Historiador e Autor

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