(Z1) 2020 - CM de Vila do Bispo - Boas Festas

O que é feito de si? Demósthenes Mesquita, Sargento-Mor na Reforma

O que é feito de si? Demósthenes Mesquita, Sargento-Mor na Reforma

Reportagem exclusiva, publicada na edição de Setembro do Correio de Lagos impresso. 

Serviço Militar na Guerra do Ultramar (Índia, Moçambique, Angola e Guiné)

Paixão pelo Associativismo com participação activa na Cultura e Desporto

Passagem pela Política e contributos na Saúde

Uma viagem pela vida de Demósthenes Mesquita com dedicatória especial à sua querida cidade de Lagos, que o viu nascer e que ama como um filho ama os que lhe são mais queridos.

Demosthenes António Puco Mesquita, nascido em 13 de Março de 1936, na Freguesia de S. Sebastião (actual Freguesia de São Gonçalo de Lagos). É casado e tem dois filhos e três netos.

É Sargento-Mor do Exército da Arma de Infantaria, actualmente na reforma.

Viveu uma infância feliz, não lhe faltando qualquer dos bens necessários no dia-a-dia. Frequentou o Ensino Primário Elementar da 1.ª à 4-ª classe na Escola Conde de Ferreira, na Praça de Armas (actual sede da Filarmónica). Foi sua professora nesses 4 anos, a professora D. Sara Mateus, saudosa Senhora de que guarda gratas recordações e conselhos. Acabado o Ensino Primário, frequenta o Curso Industrial na Escola Industrial Vitorino Damásio. No fim do 2° ano lectivo, muda-se para o Curso Comercial de Aprendizagem de Comércio, na mesma Escola, esta já com a denominação de Escola Industrial e Comercial de Lagos. Termina este curso em 1954.

O primeiro emprego na farmácia “A Lacobrigense” e o ingresso como voluntário no Exército

Desde 1952 é empregado na farmácia “A Lacobrigense”, da Associação de Socorros Mútuos, como praticante de farmácia. Aí permanece até 1955, data em que ingressou no Exército, como voluntário. Como curiosidade, lembra que participou, como futebolista, nos dois primeiros torneios populares de futebol que se realizaram em Lagos, nos anos de 1953 e 1954. Saltando no tempo nesta vertente desportiva, participou no último torneio realizado em Lagos em 1965, fazendo parte de uma formação de militares que prestavam serviço na unidade aquartelada em Lagos.

Mobilizações para a Índia, Moçambique, Angola e Guiné com diversas passagens pelo Quartel de Lagos e o nascimento dos filhos

Voltando à narrativa, assentou praça como voluntário no dia 2 de Abril de 1955, no extinto Batalhão de Caçadores nº 4, nesta cidade. Frequentou o Curso de Sargento Milicianos em Tavira. Foi promovido a 1.º Cabo Miliciano em 1956 e colocado no B. Caçadores n.º 4. Concorreu a Furriel do Quadro Permanente, ficando aprovado antes de ter terminado o período de serviço militar obrigatório. Permaneceu na B. Caçadores n.º 4 até 29 de Abril de 1959, data em que embarcou para o Estado Português da índia, fazendo parte da 1ª Companhia do Bat. Caçadores Além Tejo. Foi nessa data graduado no posto de Furriel e promovido em 1 de Janeiro de 1960. Permaneceu no Estado da índia até Março de 1961. Regressa à Metrópole e é colocado no Regimento de Infantaria nº 5, na cidade de Caldas da Rainha. Contraiu matrimónio em 27 de Maio de 1961, na cidade de Lagos. Em Setembro de 1961, é mobilizado para uma comissão de serviço na região Militar de Moçambique, fazendo-se acompanhar da sua esposa. É promovido a 2° Sargento, em Janeiro de 1962. A filha do casal nasce em 1962, na cidade de Nampula. Em Setembro de 1964, regressa à Metrópole e é colocado no extinto Regimento de infantaria nº 4, na cidade de Faro. Passa a prestar serviço em Lagos, no destacamento do Regimento até Setembro de 1965, data em que é novamente mobilizado para a R. M. Moçambique onde cumpre comissão em zona de guerrilha activa na zona do Niassa, durante cerca de 15 meses. Acaba a Comissão em Lourenço Marques, no Quartel General da R. M. Moçambique. Em Janeiro de 1966, nasce o 2° filho do casal. Apenas em Novembro de 1967, data do regresso de Moçambique, conhece o filho, passados 22 meses do seu nascimento.

Em Junho de 1969 é mobilizado para fazer parte da Companhia de Caçadores 2610 do B. Caç. 2890, formado no Regimento de Infantaria nº 15, aquartelado em Tomar. Cumpriu a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, nesta unidade, até Novembro, mês em que embarcou para a R. M. de Angola. A 1 de Janeiro de 1970 é promovido a 1° Sargento. A comissão em Angola foi totalmente cumprida em zona de guerrilha, na província do Zaire, a norte da cidade de S. Salvador.

A ascensão na carreira militar e as condecorações

Regressa à Metrópole em Janeiro de 1972. É colocado no Regimento de Infantaria nº 4 e posteriormente, no recém-criado Centro de Instrução de Condução Auto nº 5, na cidade de Lagos. Em Julho de 1973, é mobilizado para comissão no Comando Militar da Guiné. Levava como destino o Batalhão de Comandos da Guiné. É mandado em diligência para o Hospital Militar de Bissau, onde cumpre funções inerentes ao posto de 1.º Sargento. Permanece na Guiné até Outubro de 1974. Regressa à Metrópole, permanecendo no extinto Bat. de Caç. N°5, em comissão liquidatária do Hospital Militar de Bissau. Em Março de 1975, é colocado no Regimento de Infantaria de Faro, antigo R. I. nº 4, ficando a prestar serviço no Destacamento de Lagos, daquela unidade. Durante a sua permanência na sua cidade, foi Pioneiro Coralista, fazendo parte do grupo de coralistas que fundou o Grupo Coral de Lagos, em Novembro de 1975. Foi forçado a suspender a sua participação no Grupo Coral de Lagos devido à extinção da Unidade Militar, passando a prestar serviço na cidade de Faro. Como atrás se refere, volta à sede do Regimento, em Janeiro de 1977. Em Abril de 1978, presta provas pra promoção no posto de Sargento Ajudante. É promovido nesse ano ao referido posto, frequentando a seguir na Academia Militar (sec. da Amadora) o curso para Sargento Chefe, que dá acesso ao posto de Sargento Mor. Conclui o curso com boa classificação. É promovido a Sargento Chefe em 1979 e a Sargento Mor (posto a que se tem acesso exclusivamente por escolha) em Agosto de 1982. Em 1980 faz parte como Sargento Chefe, do Conselho da Arma de Infantaria, na Direcção da referida Arma. Permaneceu, desde1977 a 1985, no Regimento de Infantaria de Faro.

No dia 1 de Janeiro de 1985 passa à situação de Reserva, desligado do serviço. Passa posteriormente à situação de Reforma, situação em que está actualmente. Da sua folha de matrícula constam: - Medalha Militar de cobre, de comportamento exemplar - 3 anos de serviço. - Medalha Militar de prata, de comportamento exemplar - 25 anos de serviço. - Medalhas comemorativas das expedições à India, Moçambique (2) Angola e Guiné. - Mais de uma dezena de louvores, atribuídos pelos Diversos Comandos, onde prestou serviço.

Multifacetado no Desporto e a dedicação ao Associativismo

Apaixonado que sempre foi pelo desporto e pela prática desportiva, foi: - Finalista de Campeonato Regional de Voleibol da 4ª Região Militar, na categoria de Praças, no ano de 1958; - Vice-Campeão de Futsal (Cat. 2° Escalão) da Região Militar do Sul, em 1983. - Terceiro classificado em voleibol (Cat. 2° Escalão) da Região Militar do Sul, em 1984. - Campeão Individual de Corta Mato Curto (2° escalão) da Região Militar do Sul, em 1984. - Participação pela 1ª vez na Meia Maratona Militar da Região Militar do Sul, em Elvas, no Bat. Caç. N° 8, no percurso Elvas - Caia - Elvas, em 1984. Como atrás é referido na situação de Reserva e Reforma, dedica a sua actividade à prática mais assídua do desporto, praticando Futsal até aos 50 anos, nos célebres torneios nos “Campinhos” e no atletismo, participando em largas dezenas de provas, por todo o País, desde milhas urbanas, corridas de várias distâncias, até às meias maratonas, onde participou por 23 vezes. Uma lesão no joelho esquerdo levou-o a uma paragem forçada. Actualmente apenas pratica um pouco de marcha.

A par do desporto, dedicou-se ao Associativismo. Em 1984, faz parte da Mesa da Assembleia Geral da Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1° de Maio. Foi uma prestação de vários mandatos continuados, desde Vice-Presidente da Direcção, Secretário e Presidente da Mesa de Assembleia Geral. Houve um interregno de alguns anos, nesta colaboração na Filarmónica. Em 2018 é convidado para Secretário da Mesa da Assembleia Geral, cargo que com muita honra e satisfação, desempenha actualmente.

Durante o período em que não foi membro dos Corpos Sociais da S. F. L. 1 0 de Maio, é convidado para Secretário da Mesa da Assembleia Geral de “A Lacobrigense”, Associação de Socorros Mútuos. Desempenha esta função alguns mandatos, com várias Direcções, durante cerca de 18 anos. Actualmente é membro Suplente (a seu pedido) do Conselho Fiscal da referida Associação Mutualista.

A par desta actividade desportiva e associativa, foi dador benévolo de sangue, até aos 65 anos, idade a partir da qual não é permitido ser dador. Tem, com muita honra, a Medalha de Cobre de Dador de Sangue, do Instituto Nacional de Sangue.

A passagem pela Política

Como cidadão consciente dos seus direitos e deveres, foi Secretário da Mesa da Assembleia da Freguesia de S. Sebastião, no mandato de 1995(?) Foi eleito Deputado Municipal, pelo Partido Socialista, no mandato seguinte, tendo renunciado à posse do cargo, por motivos de ordem pessoal.

Como facilmente se depreende da leitura deste texto, nunca foi um cidadão que se pôs, nos “picos dos pés” para ser notado, mas sim que norteou a sua vida pelo serviço, primeiro como militar disciplinado e disciplinador e posteriormente na situação de reforma, consciente dos seus deveres e direitos, pugnando por uma actuação útil a si próprio, à Sociedade em que está integrado e à sua querida cidade de Lagos, que o viu nascer e que ama como um filho ama os que lhe são mais queridos.

«Estava no dia 25 de Abril na Guiné, em serviço no Hospital Militar de Bissau. (...) fiquei incrédulo, mas à medida que o dia passava e pelas informações do Comandante da Companhia essa incredulidade passava a alegria e alívio. No entanto, os momentos difíceis não tinham acabado…»

Entrevista

Correio de Lagos – Quais são as memórias que guarda da sua infância e Juventude? Demósthenes Mesquita – A minha infância e juventude foi a normal de uma criança e jovem daquela época. Era feliz! Guardo boas memórias, nada do que era essencial me faltava apesar da modéstia em que vivíamos naquela época de grandes dificuldades, devido à guerra e posteriores consequências.

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CL – Estava empregado na farmácia “A Lacobrigense”, por que razão decidiu ingressar como voluntário no Serviço Militar e seguir a carreira no Exército?

DM – Sim, estive empregado na farmácia “A Lacobrigense” cerca de 4 anos. Cresci a ouvir nos dias de sueste o treino das cornetas do Sargento Chotinha e o rufar dos tambores pelas ruas da Cidade no tempo das recrutas. Tudo isso teve consequências, porque na época em que estive na farmácia, o Director Técnico era uma pessoa austera que guardava muito do que sabia e pouco ensinava. Juntando o útil à vocação que já existia, fui para o Exército.

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CL – Esteve em quatro pontos distintos na chamada “Guerra do Ultramar”. Quais foram os momentos mais marcantes pela positiva?

DM – É verdade: comecei na Índia Portuguesa, em Goa, que me deixou grandes marcas pela positiva. Ainda hoje tenho desgosto de não ter voltado àquela terra. Nestes cerca de onze anos em que andei pela África tive muitos momentos de verdadeira camaradagem e fraternidade, porque a guerra não será só maldade.

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CL – Já agora, relate-nos alguns episódios dolorosos vividos nesse período nas antigas colónias portuguesas, sabendo-se, por exemplo, que a sua filha nasceu em Nampula e o outro filho em Lagos sem a presença regular do pai?

DM – Sim, a minha filha nasceu em Nampula. Foi um momento feliz. O meu filho nasceu em Janeiro de 1966 e eu consegui vê-lo em Novembro de 1967. Nos dias de hoje, nem pensar numa situação destas. Foi doloroso.

Más recordações tenho, uma que jamais me sai das minhas memórias. Foi no Norte de Moçambique perto do lago Niassa. Saiu um grupo de combate em missão. Passadas algumas horas esse grupo de combate foi emboscado e o guia que era cipaio da Administração (espécie de polícia municipal) foi atingido. Foi dada ordem de regressar ao acampamento com o ferido. Pede-se apoio aéreo para transportar o ferido para Vila Cabral. Os dois aviões Dornier estacionados na base estavam ambos avariados em reparação. O ferido foi agonizando e cerca de 2 da tarde, quando finalmente se ouviu o ruído do motor da avioneta o Julião faleceu nessa altura. Foi arrepiante.

Quanto aos meus filhos, sem a presença constante do pai, tiveram uma mãe que foi para eles mãe, irmã A mais velha, protectora, administradora dos nossos lares, uma mulher de valor a quem rendo o meu amor de mais de sessenta anos, hoje inválida, com uma grave doença. Continua a ser uma referência para o marido e os filhos.

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CL – Como sentiu a Revolução do 25 de Abril?

DM - Estava no dia 25 de Abril na Guiné, em serviço no Hospital Militar de Bissau. Como ignorante que era (ainda o sou em certa medida) fiquei incrédulo, mas à medida que o dia passava e pelas informações do Comandante da Companhia essa incredulidade passava a alegria e alívio. No entanto, os momentos difíceis não tinham acabado…

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CL – Observa-se que tem um gosto especial pelo desporto e uma notória dedicação ao associativismo. Como despertaram estas paixões?

DM – O gosto pelo desporto vem de menino e jovem, com as futeboladas no Rossio de S. João, na praia da Dona Ana, como antigamente. Hoje os meninos já têm os seus equipamentos, campos próprios, etc. Bem bom!

E até perto dos 70 anos, fiz desporto desde futebol, voleibol, atletismo, passando apenas por uma lesão no joelho esquerdo que me derrotou.

Penso que ainda sou uma referência no atletismo local, porque corri até bastante tarde.

Quanto ao associativismo que foi bichinho que me ficou de meu pai, que foi um dos sócios fundadores da Filarmónica e membro dos seus corpos sociais algumas dezenas de anos.

Senti-me útil à Sociedade Lacobrigense e a mim próprio com a minha actividade associativa. Ainda hoje faço parte dos corpos sociais da Filarmónica e da Associação de Socorros Mútuos “A Lacobrigense” aqui já na função de suplente.

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CL – Também teve uma passagem pela política. Quer descrever mais essa faceta e como vê a actual gestão municipal?

DM – A minha passagem pela política foi pouco significativa.

Fui membro da Assembleia de Freguesia de S. Sebastião, durante um mandato. A política não me deixa saudades, mas não me é indiferente e na minha qualidade de cidadão não deixo de reparar no que está bem ou mal.

Quanto à gestão municipal, penso que estão a fazer um trabalho correcto sob a batuta do Dr. Hugo. Espero que continue na senda do bom trabalho nos tempos difíceis que correm.

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CL - Nota-se que Demósthenes Mesquita ama muito a terra onde nasceu. Quais as principais diferenças que encontra entre a sua mocidade e a actualidade?

DM – Sim, eu amo a minha querida cidade de Lagos, meu berço. Quando estava em África, à noite antes de dormir, passeava em pensamento pelas ruas e praças da cidade adormecendo embalado por estas recordações das calçadas que tantas vezes fazia.

Não sei se esta mocidade é mais feliz do que foi a minha. Nós tínhamos alegria, éramos da rua, vivíamos felizes. Hoje a rapaziada tem tudo e pouco convive. Conversam mais com os telemóveis…

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CL – Esteve igualmente ligado à saúde. E por isso importa saber como analisa esta Pandemia que afecta o mundo?

DM - A minha ligação à saúde foi pouco significativa, pois no Hospital de Bissau o meu trabalho era mais administrativo e operacional na guarda ao Heliporto quando chegavam feridos ao Hospital. Tenho muita honra em estar ligado à saúde na qualidade de dador de sangue, durante alguns anos, parando apenas por imposição da idade.

Quanto à pandemia que nos afecta, estou naturalmente preocupado, pois não vejo baixar o número de infecções e mortos. O inverno está prestes a cair por essa Europa e a situação terá tendência a piorar.

Peço a esta juventude e adolescentes, que se deixem de disparates e imprudências e respeitem o próximo e se respeitem a si próprios! Obrigado ao Correio de Lagos por esta oportunidade que me dá em exprimir umas quantas recordações e comentários.

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