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Escolas de Aljezur, Lagos e Vila do Bispo na retoma do ensino presencial

Escolas de Aljezur, Lagos e Vila do Bispo na retoma do ensino presencial

Beatriz Maio 
Carlos Conceição
Marta Ferreira

15 de Março de 2021 foi a data definida pelo Governo para o reinício da actividade presencial em creches, Pré-Escolar e Primeiro Ciclo do Ensino Básico, tal como previsto no Plano de Desconfinamento, sendo que o 2.º e 3.º ciclos regressaram às salas de aula a 5 de Abril, seguindo-se o Ensino Secundário, que retomou o presente ano lectivo a 19 de Abril.

Por ser uma situação atípica, importou saber quais os maiores obstáculos enfrentados por docentes, discentes e seio escolar em geral – fora as respectivas famílias – a par do confinamento, que medidas foram tomadas para contornar tais desafios e qual o impacto da pandemia na qualidade do ensino destes alunos.

Assim sendo, o CL solicitou resposta por parte dos Directores dos Agrupamentos de Escolas de Lagos (Gil Eanes e Júlio Dantas), Vila do Bispo e Aljezur às seguintes perguntas:

1. Quais os principais problemas enfrentados durante o confinamento?

2. Como decorreu o regresso às aulas presenciais em período de desconfinamento e que medidas adicionais foram tomadas?

3. Neste ano lectivo atípico, a qualidade de Ensino sai afectada?

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Isabel Flosa, Sub-Directora do Agrupamento de Escolas Gil Eanes

«É por isso que dizemos, com orgulho, que nos sentimos uma família: a “Família Gil Eanes”. Num tempo de adversidade como este, não virámos a cara à luta. Lutámos e, para já, vamos vencendo!»

1. Olhando o Agrupamento como um todo, os principais problemas que sentimos foram essencialmente vividos no primeiro confinamento, em Março de 2020. Aí, face à urgência de medidas imediatas, houve a necessidade de mudarmos todo o processo de ensino presencial para digital em tempo recorde. Tivemos naturalmente alguns constrangimentos, nomeadamente pela falta de equipamentos informáticos dos alunos, colmatados pelo esforço da Câmara Municipal de Lagos, que nos disponibilizou computadores portáteis para o 2.º e 3.º ciclos, bem como tablets para os alunos dos escalões A e B do IRS do 1.º ciclo.

É verdade que o nosso Agrupamento, pelas medidas que já antes tinham sido implementadas – que passavam por uma mudança nos métodos de avaliação e implementação de novas tecnologias – talvez estivesse já preparado para dar esse salto. Mas, uma coisa é o que está no papel ou pronto a ser feito em forma de teste num determinado período experimental, e outra bem diferente é implementar em 15 dias toda uma nova estrutura pedagógica baseada no ensino à distância.

Paralelamente, beneficiámos também do facto não termos os habituais três períodos lectivos, mas sim dois semestres, à semelhança do que se passa no Ensino Superior, minimizando-se desta forma o impacto que esse confinamento teve nas dinâmicas pedagógicas.

Neste confinamento tudo se passou de forma mais tranquila. Reajustámos o nosso “Plano de Ensino à Distância”, redefinindo a distribuição de horas das aulas síncronas e assíncronas por ciclos de ensino de uma forma mais equilibrada e notámos que foi mais fácil a organização do ensino não-presencial, pois beneficiámos da experiência adquirida em 2020.

Além disso, sentimos todos os nossos docentes melhor preparados para este novo modelo de ensino e verificámos também que os alunos estavam agora melhor apetrechados em termos de equipamentos e familiarizados com as aulas interactivas e com a utilização das tecnologias.

2. Podemos dizer que foi um regresso tranquilo, cumprindo as regras já definidas e do conhecimento de toda a comunidade educativa. O regresso do 1.º ciclo e Pré-Escolar era o mais aguardado, até porque nessas faixas etárias o ensino à distância é mais complexo pois exige sempre muito apoio por parte dos encarregados de educação.

As medidas adicionais foram sensivelmente as mesmas que tivemos aquando do regresso dos alunos do Secundário, no final da Primavera de 2020 e do regresso do Pré-Escolar, no dia 1 de Junho. Criámos percursos internos alternados dentro do perímetro das escolas, procedemos ao desfasamento de horários das turmas/anos das refeições, dos intervalos, na ocupação dos diferentes espaços das escolas, bem como entradas e saídas de alunos por portões alternativos. Demos cumprimentos às orientações recebidas para a execução da limpeza e desinfecção de espaços de forma permanente e, claro está, impusemos o maior distanciamento social possível.

Já na vertente da informação, fomentámos e apelámos permanente para o cumprimento das normas de desinfecção das mãos e da obrigatoriedade do uso de máscaras para todos os alunos do 2.º e 3.º ciclos e Ensino Secundário.

Tudo isto sem esquecer três factores muito relevantes e que diferenciam 2020 de 2021 em larga escala: o conhecimento científico que temos hoje do vírus e das suas consequências; a vacinação de todo o pessoal que trabalha nas escolas, concluída este mês de Abril (primeira toma); e, por fim, a testagem em massa de pessoal docente, não docente e alunos do Secundário, elemento vital para quebrar possíveis cadeias de transmissão.

3. É impossível dizer que tudo ficou na mesma. Claro que a distância afecta a qualidade de ensino, porque o processo pedagógico vai muito além da mensagem que o professor passa ao aluno.

Aprendemos de várias formas e uma das mais importantes é a partilha de saberes que se consegue com a interacção entre alunos, numa aprendizagem com base nos afectos. Ora essa aprendizagem perdeu-se neste período, porque foi muito condicionada pelo distanciamento. Ainda assim, o mais importante que devemos referir foi o excelente empenho de todos para que as consequências desta pandemia não fossem tão gravosas. E neste “todos” englobamos muita gente, desde logo os nossos professores, incansáveis no apoio dado aos alunos, e pais, sendo que também muitos deles estavam com os seus filhos a cargo, numa tarefa difícil e que merece o nosso reconhecimento.

Já os encarregados de educação foram, sem dúvida, uma peça vital, funcionando como a extensão do professor em casa. Por fim os próprios alunos, que mostraram enorme adaptabilidade a esta nova forma de aprendizagem, sabendo que muitos sentiram falta do convívio presencial com os colegas e amigos.

Globalmente falando, apesar de uma ou outra questão menos positiva, foram todos excepcionais e merecem o nosso reconhecimento, assim como as autoridades de saúde e autárquicas que articularam connosco procedimentos e nos deram um apoio permanente. É por isso que dizemos, com orgulho, que nos sentimos uma família: a “Família Gil Eanes”. Num tempo de adversidade como este, não virámos a cara à luta. Lutámos e, para já, vamos vencendo!

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José Lopes, Director do Agrupamento de Escolas Júlio Dantas

«Neste momento, podemos afirmar que o sucesso educativo não está comprometido»

1. O principal problema prendeu-se com o garantir das aprendizagens dos alunos nas actividades à distância (Ensino @ Distância). Para o efeito, uma das preocupações do Agrupamento de Escolas Júlio Dantas foi assegurar os equipamentos informáticos e acesso à Internet a todos os alunos beneficiários da Acção Social escolar, certificando-se que todos os alunos tinham as mesmas oportunidades.

Comparativamente com o confinamento vivenciado no ano lectivo anterior, posso assegurar que em Janeiro de 2021 esta organização estava mais bem preparada para mudar para o ensino à distância, tendo havido lugar a melhorias e ajustes contínuos de todos os procedimentos.

2. A nível nacional, o Ministério da Educação reajustou o calendário escolar devido à interrupção lectiva ocorrida. A grande preocupação do Agrupamento é consolidar aprendizagens que tenham sido sinalizadas como mais precárias. Os professores fizeram a identificação por disciplina dessas fragilidades, estando neste momento a trabalhar no sentido de as recuperar.

As medidas de promoção do sucesso educativo do Agrupamento vão ainda ser adaptadas tendo em conta o referido anteriormente, a partir de 2021/2022. Irão ainda ser adoptadas medidas com base no plano de actuação a elaborar pelo Ministério da Educação para 2021-2023.

3. Qualquer situação que perturbe o normal funcionamento das actividades lectivas (regime presencial) afecta o processo de ensino e aprendizagem, no entanto, as medidas enunciadas visam mitigar esses efeitos.
Temos consciência que as competências experimentais das disciplinas no geral, a área das matérias e da aptidão física na Educação Física, o Desporto Escolar, as saídas de campo carecem de recuperação/consolidação. Neste momento, podemos afirmar que o sucesso educativo não está comprometido.

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Joaquim Azevedo, Director do Agrupamento de Escolas de Vila do Bispo

«O regresso dos alunos ao ensino presencial implicou, obviamente, a continuação da observância, por parte de todos, das medidas definidas pelas Autoridades de Saúde dando continuidade ao Plano de Acção do Agrupamento implementado antes do confinamento»

1. Os problemas enfrentados neste Agrupamento de escolas serão, em maior ou menor grau, comuns aos enfrentados por qualquer outro. O ensino à distância, foi a experiência imposta à Escola como a resposta possível no quadro de uma pandemia como aquela que nos afectou e continua a afectar. Assim, o principal problema desta modalidade de ensino, reside precisamente, no factor distância.

O ensino, a aprendizagem, a aquisição e monitorização das aprendizagens, faz-se em presença, faz-se através da relação estabelecida entre professores e alunos, faz-se através do acompanhamento de dificuldades detectadas com vista à sua superação em contexto de proximidade real (física).

A distância evidenciou de forma relevante as desigualdades existentes neste e noutros agrupamentos. Carências que a escola procura mitigar, algumas até ditadas pela pandemia, em muitos casos agravaram-se, desde logo, as económicas.

O factor “equidade” no acesso e desenvolvimento das competências, que cabe à escola promover, foi, seriamente, posto em causa. Basta pensarmos nas desigualdades existentes nos vários agregados familiares a vários níveis: disponibilidade de equipamentos tecnológicos em número e qualidade (bem como o acesso a rede de Internet); literacia digital e formação académica dos encarregados de educação e, com isto, a abundância de apoios para uns e a sua escassez e/ou ausência para outros; harmonia, em muitos casos, e constrangimentos vários em tantos agregados familiares (stress, ansiedade, desinteresse, falta de tempo, preocupações várias, medo…). Estes são apenas alguns exemplos reais de tudo aquilo que não desejamos que comprometa o ensino e a aprendizagem. E comprometeu.

O plano posto em prática durante o ensino à distância que garantiu um horário semanal de aulas síncronas em todas as disciplinas; trabalho autónomo; tempos de apoio com os professores; plataformas e ferramentas de comunicação e de trabalho eficazes; recursos variados e atractivos; atendimento inexcedível dos professores aos alunos e encarregados de educação; monitorização de actividades; feedback relativo às tarefas propostas, garantiu a assiduidade dos alunos, a sua ligação à escola, em muitos casos o aumento da autonomia e da responsabilidade, mas não evitou a perda de aprendizagens para quase todos.

2. A decisão de aplicar a segunda fase do Plano de Desconfinamento, conhecido a 11 de Março, foi decidida em Conselho de Ministros, depois de analisada a situação epidemiológica em Portugal, em especial a Taxa de Transmissão e a incidência de novos casos. O regresso dos alunos ao ensino presencial implicou, obviamente, a continuação da observância, por parte de todos, das medidas definidas pelas autoridades de saúde, dando continuidade ao Plano de Acção do Agrupamento implementado antes do confinamento.

3. Sem dúvida que várias aprendizagens não terão sido realizadas num contexto tão atípico como aquele que levou ao confinamento das escolas. Torna-se mais grave se pensarmos que o ensino à distância aconteceu em períodos de tempo ocorridos em dois anos lectivos.

Podemos afirmar que a nível das competências digitais, do conhecimento de novas plataformas, ferramentas e recursos; da autonomia e da responsabilidade da grande maioria dos alunos do agrupamento se verificaram progressos, mas não estaríamos a “falar” de Planos de Recuperação de Aprendizagens se a qualidade do ensino ministrado não tivesse posta em causa, bem como a sua equidade.

O Agrupamento de Escolas de Aljezur não chegou a prestar declarações sobre o tema.

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Fotografias

1 – Isabel Flosa.

2 – José Lopes.

3 – Joaquim Azevedo.

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In: Edição Impressa do Jornal Correio de Lagos nº367 · MAIO 2021

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